Capítulo 9

LUTA 

O amor de Félix era um gosto amargo, travado de dúvidas e suspeitas. 
Melindroso lhe chamara ela, e com razão; a mais leve folha de rosa o 
magoava. Um sorriso, um olhar, um gesto, qualquer coisa bastava para lhe 
turbar o espírito. O próprio pensamento da moça não escapava às suas 
suspeitas: se alguma vez lhe descobria no olhar a atonia da reflexão, entrava a 
conjeturar as causas dela, recordava um gesto da véspera, um olhar mal 
explicado, uma frase obscura e ambígua, e tudo isto se amalgamava no ânimo 
do pobre namorado, e de tudo isto brotava, autêntica e luminosa, a perfídia da 
moça. 

Lívia preferia decerto uma confiança honesta e leal, mas a desconfiança estava 
longe de lhe amargurar o coração, aceitava-a com alegria. 

— Antes isto, dizia-lhe depois de uma reconciliação; vejo que me ama. A 
confiança também se parece com a indiferença, e a indiferença é o pior de 
todos os males. 
Esta filosofia teve seus instantes de desmaio. Não bastava a força do amor 
para resistir à suspeita de todos os dias, que se apagava às vezes logo, mas 
que renascia depois, para de novo se apagar e renascer. Lívia começou a fugir 
dos lugares que até então freqüentava habitualmente. Raras vezes aparecia no 

teatro ou numa reunião. Félix compreendeu a causa desta reserva e disse-lha. 
A moça negou; mas, como ele insistisse em afirmar e pedir que ela não 
alterasse os seus hábitos, respondeu: 

— É bom de dizer, Félix; assim vamos melhor; lá fora como aqui, lá pior do 
que aqui, a menor coisa basta para lhe transviar o espírito. 
— Juro-lhe que não. 
Jurava, mas quebrava o juramento. O espírito não ratificava as promessas do 
coração. 

De que lhe servia a ela a máxima prudência nas suas relações com as demais 
pessoas, se tudo era pouco para obter a confiança de Félix? Uma hora de 
inalterável felicidade era comprada à custa de muitas horas de tédio, às vezes 
de lágrimas. Ele as sentia decerto, e pagar-lhas-ia com sacrifícios, se precisos 
fossem; mas eram curtos esses lúcidos instantes. 

Lívia não se acostumou a ler logo na fisionomia do médico. Ele possuía em alto 
grau a faculdade de esconder o bem e o mal que sentisse. Era uma faculdade 
preciosa, que o orgulho educara, e se fortificou com o tempo. O tempo, 
entretanto, a pouco e pouco lhe foi adelgaçando essa couraça, à medida que se 
prolongava e multiplicava a luta. Então os olhos da viúva aprenderam a 
soletrar-lhe no rosto os terrores e as tempestades do coração. Às vezes, no 
meio de uma conversa indiferente, alegre, pueril, os olhos de Lívia se 
obscureciam e a palavra lhe morria nos lábios. A razão da mudança estava 
numa ruga quase imperceptível que ela descobria no rosto do médico, ou num 
gesto mal contido, ou num olhar mal disfarçado. 

Esta situação pôde esconder-se aos olhos de todos, menos aos de Luís Batista. 
Observador e perspicaz, e ao mesmo tempo sem paixões nem escrúpulos, 
percebeu este que quanto mais o amor de Félix se tornasse suspeitoso e 
tirânico, tanto mais perderia terreno no coração da viúva, e assim roto o 
encanto, chegaria a hora das reparações generosas com que ele se propunha a 
consolar a moça dos seus tardios arrependimentos. 

Para alcançar esse resultado, era mister multiplicar as suspeitas do médico, 
cavar-lhe fundamente no coração a ferida do ciúme, torná-lo em suma 
instrumento de sua própria ruína. Não adotou o método de Iago, que lhe 
parecia arriscado e pueril; em vez de insinuar-lhe a suspeita pelo ouvido, 
meteu-lha pelos olhos. 

A dificuldade era certamente maior e mais delicada, mas o pretendente tinha 
em larga escala as qualidades precisas para ela. Era-lhe necessário afetar com 
a moça uma intimidade misteriosa, mas discreta, sem aparato, antes cercada 
de infinitas cautelas, tão hábil que ela não percebesse, mas tão claramente 
dissimulada que fosse direito ao coração de Félix. 

Mas a mulher dele? A mulher dele, amigo leitor, era uma moça relativamente 
feliz. Estava mais que resignada, estava acostumada à indiferença do marido. 
Dera-lhe a Providência essa grande virtude de se afazer aos males da vida. 
Clara havia buscado a felicidade conjugal com a ânsia de um coração que tinha 
fome e sede de amor. Não logrou o que sonhara. Pedira um rei e deram-lhe 
um cepo. Aceitou o cepo e não pediu mais. 

Todavia o cepo não o fora tanto antes do casamento. Paixão não a teve nunca 
pela noiva; teve, sim, um sentimento todo pessoal, mistura de sensualidade e 
fatuidade, espécie de entusiasmo passageiro, que os primeiros raios da lua-demel 
abrandaram até apagá-lo de todo. A natureza readquiriu os seus aspectos 
normais; a pobre Clarinha, que havia ideado um paraíso no casamento, viu 

desfazer-se em fumo a sua quimera, e aceitou passivamente a realidade que 
lhe deram, — sem esperanças, é certo, mas também sem remorsos. 

Faltava-lhe, — e ainda bem que lhe faltava, — aquela curiosidade funesta com 
que o anfíbio clássico, desenganado do cepo, entrou a pedir um rei novo, e 
veio a ter uma serpente que o engoliu. A virtude salvou-a da queda e da 
vergonha. Lastimava-se, talvez, no refúgio do seu coração, mas não fez 
imprecações ao destino. E como nem tinha força de aborrecer, a paz doméstica 
nunca fora alterada; ambos podiam dizer-se criaturas felizes. 

Ora, pois, enquanto Clarinha nenhum lugar ocupava no espírito do marido, 
este executou o plano que havia organizado. O resultado foi lento, mas certo. 
O coração de Félix bebeu aos poucos o veneno que lhe propinava 
tranqüilamente o astuto rival; mil circunstâncias fortuitas vieram favorecer a 
obra de Luís Batista. O espírito de Félix era apropriado terreno para ela; a 
suspeita rara vez lhe morria em embrião; uma vez lançada a semente, 
germinava com força, crescia, apoderava-se dele, e então batia a hora da 
crise, a hora que o seu rival pacientemente esperou, e conseguiu. 

Desta vez assentou Félix numa resolução heróica: romper o encanto que o 
prendia à bela viúva. Tinham já passado alguns meses, todos eles assim 
entremeados de felicidade e amargura. Cem vezes se convencera das suas 
injustiças; mas a cada suspeita nova ressurgiam as anteriores, as que ela 
perdoara, e a última confirmava então as primeiras, e o pobre rapaz achava-se 
sinceramente ludibriado e ridículo. 

Escreveu uma carta longa e violenta, em que acusava a moça de perfídia e 
dissimulação. Havia amargura na carta, mas havia também ódio e desprezo, 
tudo quanto podia ferir para sempre um coração que até ali soubera amar e 
sofrer, mas que enfim podia cansar e desprezar. 

Enviada a carta, deixou-se ele entregue à sua dor, disposto a não voltar a 
Catumbi. Ninguém viu então uma lágrima que o desespero lhe arrancou, e que 
ele se apressou de enxugar com vergonha de si mesmo. Recapitulou então 
todos os sucessos dos últimos dias; nunca lhe parecera mais evidente a traição 
da moça, nem mais cruel a situação do seu espírito. Um raio de esperança veio 
entretanto projetar-se na sua noite de dúvidas. Imaginou que tudo podia ser 
erro e ilusão, e, esperou que a resposta de Lívia tudo viesse esclarecer. 

Não esclareceu a resposta da moça, porque o portador da carta voltou sem 
ela. Ao ciúme que o devorava, veio misturar-se o despeito; complicou-se a dor 
com o orgulho ofendido. Lívia apareceu-lhe com todos os caracteres de uma 
loureira vulgar, e loureira não traduz bem o pensamento do moço. 

Nesse estado passou Félix o resto do dia. Longas lhe correram as horas, 
friamente longas como elas são, quando o coração padece ou espera. Enfim, 
caiu a tarde, apagou-se de todo o sol, as sombras da noite começaram a lutar 
com os derradeiros lampejos do crepúsculo, até que de todo dominaram o céu. 

A melancolia da hora insinuou-se no coração do médico, e a pouco e pouco lhe 
aquietou o desespero do dia. Félix meditou longo tempo na situação que as 
circunstâncias lhe haviam criado. Viu o imenso espaço que aquele amor lhe 
tomara na vida, e a terrível influência que poderia exercer nela, caso não 
achasse forças para resistir à separação. Qual seria o meio de escapar a esse 
desenlace, pior que tudo? Félix pensou numa viagem, como o meio mais fácil e 
pronto. Dispunha mentalmente as coisas para esse fim, quando ouviu parar 
um carro. 

Daí a pouco entrou um escravo dizendo que uma pessoa insistia em falar-lhe: 
era uma senhora. 

— Uma senhora! repetiu Félix. 
Era Lívia. Quando Félix chegou à sala, estava ela à porta, com o rosto coberto 
por um véu que arregaçou imediatamente. Félix não pôde reter um grito de 
surpresa. 

Lívia trazia pela mão um menino: era o filho. Caminhou para o médico depois 
de alguns instantes de absoluto silêncio, e estendeu-lhe a mão. 

— Não esperava a minha visita? disse ela com tranqüilidade. 
— Confesso que não. 
— Devia esperar, porque eu não havia respondido à sua carta, e alguma coisa 
cumpria que lhe dissesse. 
— Não receou que os olhos da sociedade... disse ele. 
— A sociedade está tomando chá, atalhou a viúva procurando sorrir. Era 
preciso que eu viesse e vim. 
Félix fez um movimento. 

— Sim, era preciso, insistiu Lívia. Uma carta seria já inútil; entre nós as cartas 
perderam a virtude, Félix. Eu já não sei, já não tenho palavras com que lhe 
restitua a confiança ao coração. Esta ousadia talvez... 
A luz batia de chapa no rosto da moça; Félix viu tremerem-lhe duas lágrimas 
nos olhos, hesitarem um instante, e rolarem depois na face, levemente corada 
de agitação e de pejo. 

— Fui talvez cruel no que lhe escrevi, disse ele, e quero crer que fosse também 
injusto, mas amo-a, é todo o meu crime... 
Lívia suspirou. 

— Não o amo eu também? disse ela. Nem por isso sou cruel ou injusta. Mas 
não o acuso; se o acusasse não viria aqui. Venho porque sei que padece, e a 
despeito de tudo devia vir. 
Félix conduziu-a para o sofá, e sentou-se numa cadeira. Luís ficou de pé, entre 
ele e ela, meio indiferente, meio curioso do que ouvia sem entender. 

— Não receou que este menino pudesse dizer alguma coisa? perguntou Félix. 
— Não pensei nisso. Fui visitar Raquel, que está muito mal; fui só com ele. 
Tinha a idéia de vir às Laranjeiras: isso dominava tudo. Se conseguir dissipar-
lhe as novas dúvidas que o afligem, pouco me importam as conseqüências. 
Que quer? Eu sou assim. Vejo no mundo o meu amor e a sua felicidade; tudo o 
mais me é estranho ou nulo. 
Lívia dizia estas palavras com um tom singelo e verdadeiramente d'alma, que 
comoveu o médico. 

— Oh! para isso basta uma coisa, disse Félix com impetuosidade. Jura-me que 
nenhuma razão havia para suspeitar? 
Lívia abriu muito os olhos como espantada do que ouvira; depois, abanando 
tristemente a cabeça: 

— O senhor há de quebrar todo o meu orgulho, disse com amargura. Eu 
arrisco tudo para lhe restituir a felicidade e a paz; o senhor recompensa-me 
este sacrifício com a humilhação. Jurar-lhe! De que serve um juramento mais 
entre nós? Se o que acabo de fazer não é bastante, Félix, concluamos aqui o 
nosso romance; e oxalá que alguma página dele possa algum dia lembrar-lhe 
com saudade. 
Dizendo estas palavras, a moça voltou o rosto para esconder a sua comoção. 
Félix sentiu pungir-lhe um remorso, e teve ímpeto de cair aos pés da bela 
viúva. Murmurou algumas palavras, que ela não percebeu ou não ouviu, até 
que o menino chamou a atenção de ambos, dizendo: 

— Vamos, mamãe? 
Lívia levantou-se e desceu o véu sobre o rosto. 

— Perdoe-me tudo, disse Félix; ainda uma vez lhe peço perdão. Não me julgue 
como os outros fariam, se conhecessem esta triste história de alguns meses. 
Não sou mau; falta-me confiança; algum dia lhe direi por quê. Por agora, 
perdoe-me outra vez. Injuriei-a, bem sei; não devia pedir-lhe nada mais, 
porque me deu generosamente a maior consolação que o meu espírito ousaria 
esperar. 
— Esse homem? disse a viúva, depois de um instante. 
— Por que me pergunta? 
— Quero afastá-lo de minha casa, se ele lá vai, ou evitar as ocasiões de me 
encontrar com ele. 
— É um homem que a não respeita sequer, um libertino, cuja mulher é um 
anjo... 
— O Dr. Batista? 
— Esse. 
Lívia estendeu-lhe a mão. Félix quis ainda falar-lhe, mas a viúva observou que 
era tarde e dirigiu-se para a porta. Félix acompanhou-a até o jardim. Ao 
despedir-se dela pela última vez, o médico apertou-lhe Félix fervorosamente a 
mão. 

— Perdoa-me? 
— Sim! disse ela. 
E pela primeira vez nessa noite era a sua voz terna e amorosa como de 
costume. 

Félix viu-a entrar no carro que partiu imediatamente. Voltou para a sala. 
Estava irritado contra si mesmo. Reconhecia a sua precipitação; achava-se 
grosseiramente injusto. Se lhe houvera lembrado a visita da moça, tê-la-ia 
pedido como o meio único de lhe desvanecer de todo as suspeitas. Agora que 
ela o deixava, acusava-se de a haver obrigado àquele extremo recurso. 

A noite pareceu-lhe ainda mais longa que o dia. Velava e remordia-lhe a 
consciência. Ouviu bater uma por uma as horas todas, ansioso por que viesse 

o dia seguinte para ir a Catumbi resgatar à força de ternura e respeito a 
injustiça com que tratara a viúva. Cerrou os olhos quando a arraiada 

despontou no céu; pouco dormiu, entretanto. Ao levantar-se tinha o espírito 
mais sossegado, e pôde apreciar melhor a situação. 

— O casamento me restituirá a confiança, pensava ele; quando estivermos 
juntos os dois, afastados da convivência e do contato de estranhos, a paz 
morará no meu coração; só então seremos felizes sem amargura nem 
remorso.