Capítulo 7

O GAVIÃO E A POMBA 

Iniciando afoitamente esta aventura, era natural que Félix saísse de Catumbi 
com a vaidade satisfeita de um triunfador. Não era ele amado, e amado sem 
esforço seu, sem resistência nem combate? E a mulher que lhe acabava de dar 
francamente o coração não tinha todas as qualidades que podem seduzir um 
homem e lisonjear-lhe o amor-próprio? 

Qualquer outro teria motivo de se julgar superior ao resto dos mortais; mas 
era a natureza mesma da vitória que vinha travar a felicidade de Félix. A que 
propósito interviria o coração neste episódio, que devia ser curto para ser belo, 
que não devia ter passado nem futuro, arroubos nem lágrimas? 

— Fui longe demais, ia ele dizendo consigo; não devia alimentar uma paixão 
que há de ser uma esperança, e uma esperança que não pode ser outra coisa 
mais que um infortúnio. Que lhe posso eu dar que corresponda ao seu amor? O 
meu espírito, se quiser, a minha dedicação, a minha ternura, só isso... porque 
o amor... Eu amar? Pôr a existência toda nas mãos de uma criatura estranha... 

e mais do que a existência, o destino, sei eu o que isso é? 

Neste ponto, parece que alguma idéia vaga e remota lhe surgiu no espírito e o 
levou a uma longa excursão no campo da memória. Quando voltou à realidade 
presente tinha o carro entrado no Largo do Machado. Apeou-se e seguiu a pé 
para casa. 

A viúva tornou a ocupar-lhe o espírito. Recapitulou então tudo o que se 
passara em Catumbi, as palavras trocadas, os olhares ternos, a confissão 
mútua; evocou a imagem da moça e viu-a junto dele, pendente de seus lábios, 
palpitante de sentimento e ternura. Então a fantasia começou a debuxar-lhe 
uma existência futura, não romanesca nem legal, mas real e prosaica; como 
ele supunha que não podia deixar de ser com um homem inábil para as 
afeições do Céu. 

— E que outra coisa quer ela? dizia o médico a si mesmo. Era, sem dúvida, 
melhor que houvesse menos sentimento naquela declaração, que tivéssemos 
navegado mais junto à terra, em vez de nos lançarmos ao mar largo da 
imaginação. Mas, enfim, é uma questão de forma; creio que ela sente da 
mesma maneira que eu. Devia tê-lo percebido. Fala com muita paixão, é 
verdade; mas naturalmente sabe a sua arte; é colorista. De outro modo 
pareceria que se entregava por curiosidade, talvez por costume. Uma paixão 
louca pode justificar o erro; prepara-se para errar. Não me anda ela a seduzir 
há tanto? É positivo; mete-se-me pelos olhos. E eu a imaginar que... 
Quando Félix chegou a casa, estava plenamente convencido de que a afeição 
da viúva era uma mistura de vaidade, capricho e pendor sensual. Isto lhe 
parecia melhor que uma paixão desinteressada e sincera, em que, aliás, não 
acreditava. Não admira pois que ainda desta vez a lembrança de Lívia lhe não 
perturbasse o sono, e que o primeiro clarão da aurora, atravessando os vidros 
da janela da alcova, alumiasse o rosto do médico, tão grave e plácido como na 
véspera. 

Félix voltou a Catumbi naquele mesmo dia. A viúva estava radiante de 
felicidade, trêmula de alegria. Estendeu-lhe a mão, que ele apertou, não 
palpitante como ela, mas cheio de delicadeza e graça. A presença de Viana, 
além disso, impedia qualquer outra manifestação exterior. O parasita, que 
parecia empenhado em preparar uma aliança de família com o médico, dispôs-
se a não ser cruel para os dois namorados; fechou os olhos, cerrou os ouvidos, 
e, se em todo o caso foi importuno, não o deveu à vontade, mas à situação, 
porque em tais circunstâncias nem todo o engenho de Voltaire pode fazer um 
homem interessante. 

Amiudaram-se ainda mais as visitas de Félix, que ali encontrou algumas vezes 
a família do Coronel Morais, e outras, poucas, da intimidade de Lívia. D. 
Matilde sentia entusiasmo pelo médico; quanto a Raquel olhava para ele com 
uma espécie de adoração. Dos homens alguns o detestavam cordialmente, 
outros tinham-lhe medo, não raros inveja, e alguns poucos simpatia. 

Félix, entretanto, parecia indiferente aos sentimentos que inspirava, e deste 
modo obedecia a um sistema não menos que à disposição do seu espírito. O 
mesmo praticava em relação ao amor. Evitava, quanto podia, animar as 
esperanças da moça, e posto soubesse a fundo a retórica da paixão, não a 
empregava sem uma parcimônia, que lhe parecia economia razoável. 

Lívia, porém, não dissimulava nem hesitava; deixava transparecer no rosto o 
que sentia no coração. Jogava com as cartas na mesa sem previsão nem 
cálculo. Expansiva e discreta, enérgica e delicada, entusiasta e refletida, Lívia 
possuía esses contrastes aparentes, que não eram mais que as harmonias do 
seu caráter. Os próprios defeitos dela nasciam de suas qualidades. Era crédula 

à força de ser confiante, ríspida com tudo o que lhe parecia baixo ou fútil. 
Tinha a imaginação quimérica, às vezes — o coração supersticioso, a 
inteligência austera, mas compensava estes defeitos, se o eram, por 
qualidades capitais e raras. 

Um dia em que ambos conversavam do único assunto que lhes podia 
interessar — pelo menos do único que lhe interessava a ela, Félix pediu-lhe 
explicação de uma coisa que lhe parecia obscura. 

— Obscura? repetiu Lívia. 
— Lembra-se da noite em que a encontrei no Ginásio? disse o médico. Estava 
preocupada e alheia a tudo. Conversou mal e distraída, interessavam-lhe as 
cenas amorosas, tudo mais parecia aborrecê-la. No fim do terceiro ato 
levantou-se e foi-se embora. Diz-me, entretanto, que desde o sarau do coronel 
já começava a sentir este amor que é a sua vida. Pois bem, não estava eu lá, a 
seu lado, no teatro? 
— Não. 
— Oh! 
— Estava outro homem, muito diverso deste que eu vejo agora ao pé de mim, 
porque ainda não me amava. Mas não era só isso; era mais. Pensa que os seus 
atos, sentimentos e pessoa, não são objeto dos comentários estranhos? 
— Importam-me tão pouco os comentários! 
— Pois bem, falaram-me muito mal do seu coração naquele dia. 
— Que lhe disseram desse viajante incógnito? 
— Viajante? perguntou Lívia. 
— Que foi, emendou Félix. 
— Disseram-me muitas coisas más. 
— Deu-lhes crédito? 
— Não; mas fiquei triste. Eu estava acostumada a admirá-lo de longe. 
Conhecia-o pouco, mas meu irmão falava-me muita vez a seu respeito nas 
cartas que me escrevia para Minas, e Raquel fazia coro com ele. 
— Seu irmão tem certo entusiasmo por mim, disse Félix; é natural que 
exagere os meus méritos. Quanto à filha do coronel, é uma criança, que se 
acostumou a ver-me com olhos de irmã mais moça. 
— Quer então que eu acredite antes nas coisas más? 
— Nem más nem boas, Lívia; conheça-me primeiro; fará depois juízo seguro. 
— Oh! conheço-te! exclamou ela. 
A entrada de Viana interrompeu o colóquio. Félix dirigiu-se à mesa e abriu um 
álbum, enquanto Viana referia à irmã as peripécias de um jantar a que 
assistira. 

O álbum da viúva, que o médico abria pela primeira vez, estava já alastrado de 
prosa e verso. Nem tudo era bom, como acontece nesses livros, que são às 

vezes verdadeiros asilos de inválidos do Parnaso, onde as musas reumáticas e 
manetas vão soltar os seus gemidos. Uma página havia que lhe pareceu 
misteriosa: era uma declaração de amor sem assinatura. Leu-a, e não pôde 
deixar de sorrir: só havia uma coisa pior que a forma, era o pensamento. 

— De que se ri? perguntou a viúva. 
Viana aproximou-se de Félix e lançou os olhos para a página aberta. 

— Ah! disse ele estouvadamente, isto é de meu defunto cunhado. 
Lívia estremeceu e corou. 

— Viúva de um néscio! pensou Félix. Estava pedindo um homem inteligente.