Capítulo 17

 

SACRIFÍCIO

A situação das duas moças demandava um termo. Raquel foi a primeira que 
resolveu deixar completamente o campo; tinha no seu restabelecimento uma 
excelente razão para regressar a casa. 

Lívia compreendeu a intenção da amiga quando esta lhe comunicou a sua 
resolução. Era tão simples e tocante o sacrifício, que a viúva não resistiu a um 
impulso generoso. Respondeu-lhe com um beijo. O beijo era de admiração; 
Raquel acreditou fosse de agradecimento, e sorriu com tristeza. 

Ficou assentado que Raquel iria no domingo próximo, e nesse sentido foi 
avisado o coronel. 

Estavam ainda no dia seguinte ao do episódio do menino. Nenhuma das suas 
circunstâncias esquecera ao médico. A esquivança de Raquel continuava a 
preocupar-lhe o espírito, não menos que a infundada suspeita que nutria a 
respeito da viúva. Era meado do mês de dezembro. A data do casamento 
estava próxima. Tudo exigia um desenlace a tempo. 

Não tardou que o médico descobrisse os sentimentos que a filha do coronel 
nutria a seu respeito. Surpreendeu-a perto de uma janela interior, a beijar 
uma página de um álbum de retratos. Aproximou-se cauteloso, lançou os olhos 
à página e viu nela o seu próprio retrato. 

A descoberta fê-lo sorrir. Seria aquilo a razão da mudança que notara nela? 
Nesse caso sabia já da afeição que o ligava à viúva, talvez do projetado 
casamento. Era possível também que a volta dela à casa de seus pais não 
tivesse outro motivo. 

Por mais isento que seja o espírito de um homem, é raro que o não lisonjeie 
uma afeição assim, medrosa e silenciosa, nascida e vivida na soledade da 
alma. Félix sentiu primeiro essa impressão de egoísmo. Veio depois outro 
sentimento melhor, — o de uma respeitosa admiração. Seu pensamento entrou 
a conjeturar a data daquele singular amor; à proporção que se internava nos 
dias do passado, ia combinando uma série de episódios esparsos, 
aparentemente vagos, agora significativos e eloqüentes. Não era recente a 
afeição dela; era talvez anterior à sua enfermidade. 

Chegara o sábado, véspera da partida de Raquel. Era de noite. Félix estava em 
casa da viúva, e ambos, e Raquel, e até Viana todos pareciam preocupados e 
tristes. O médico olhava para a filha do coronel, sem reparar que os olhos de 
Lívia seguiam os seus e como que buscavam ler por eles os sentimentos do 
coração. 

Raquel esquivava-se às atenções do médico. Em certa ocasião, porém, — 
achando-se Félix mais afastado, — aproximou-se dele com um livro. 

— Já leu este romance? perguntou ela. 
— Deixe ver, disse Félix, convidando-a com um gesto a sentar-se. 
Raquel não se sentou; estendeu-lhe o livro, e olhou com insistência para o 
médico. 

Félix pegou no livro e consultou a primeira página; ia voltar distraidamente a 
segunda, quando lhe caiu nos joelhos um papelinho dobrado. Raquel voltou 
assustada a cabeça para o lado de Lívia, que de pé, junto do piano, tirava 
notas soltas do teclado, sem olhar para o grupo. Raquel fez ao médico um sinal 
de silêncio e afastou-se dele. Félix guardou o papel no bolso. 

— Quase uma criança! ia ele pensando quando se retirava para casa depois do 
chá. 
Quando ali chegou não se deu ao trabalho de tirar o chapéu. Abriu a carta logo 
na sala. 

Dizia a carta: 

"Pela memória de sua mãe, não seja cruel! Lívia ama-o muito. Não a faça 

morrer, que seria um pecado!" 

Félix esfregou os olhos e releu o bilhete. 

Não havia negá-lo; a letra era de Raquel e o conteúdo era uma súplica a favor 
da rival. Não sorria o médico; estava atônito. A verdade, tão inverossímil desta 
vez, metia-se-lhe pelos olhos, singela, eloqüente, espontânea. Espontânea 
seria? Félix fez essa pergunta a si mesmo, e afirmativamente lhe respondeu; 
não atribuía à viúva tamanha influência, nem à donzela tamanha submissão, 
que uma inspirasse e a outra escrevesse aquela carta. A coisa pareceu-lhe o 
que realmente era: um sacrifício de Raquel. 

Félix não era homem de grandes expansões; mas, se Raquel estivesse diante 
dele naquela ocasião, era capaz de cair-lhe aos pés. Abafar uma afeição 
silenciosa, a primeira talvez, para pedir a felicidade de outra mulher, era 
abnegação rara, que o surpreendia. 

A ação de Raquel fez-lhe esquecer por algum tempo a viúva, objeto da carta 
que acabava de ler. Raquel não afirmaria tão claramente os sentimentos da 
amiga, se não tivesse plena certeza deles. Como conciliaria, entretanto, a 
afirmação de hoje com a suspeita de ontem? A mesma Raquel lhe insinuara 
diversa inclinação da viúva. Naturalmente reconhecera o contrário. A idéia da 
reabilitação de Lívia para logo dominou o espírito de Félix. Seu amor existia no 
mesmo estado de força e viço; fácil de desmaiar, não era menos fácil de se 
restabelecer. No dia seguinte parecia desfeita a nuvem que por alguns dias o 
abafara. 

Foi à casa da viúva; era uma hora da tarde. Tinha curiosidade de encarar a 
filha do coronel. Achou-a tão alegre e travessa como era dantes. Era assim 
aparentemente; os olhos estranhos não viam a mágoa interior e encoberta que 
lhe roía o coração. Seu infortúnio tinha pudor. 

Ao médico era impossível encobrir esse estado. A tocante generosidade da 
moca fez-lhe bem ao coração. Teve ele a delicadeza de não tratar a viúva por 
modo que magoasse a donzela; mas, tão outro se mostrava do que fora até 
então, que a viúva não pôde resistir-lhe, e aquele dia foi muito menos triste 
que os outros. 

As travessuras de Luís faziam coro com as de Raquel. A porta da sala estava 
aberta. Luís desceu os degraus que comunicavam da sala com o jardim, na 
ocasião em que Lívia fechava uma pulseira de Raquel. Quando a viúva deu por 
falta do filho, correu à porta. O menino corria na direção da porta da rua. A 
mãe desceu atrás dele. 

Raquel ia descer também; Félix pegou-lhe na mão. A moça estremeceu toda; 
afoguearam-se-lhe as faces, e ela balbuciou: 

— Leu a minha carta? 
— Li, respondeu Félix cravando nela um olhar que era a um tempo de simpatia 
e de pena. Li, e não sei se deva crer o que lá me diz. 
— É a verdade. 
— Mas então supõe... 
— Que ela o ama; afirmo-lho. 
— E que eu a amo também? perguntou com hesitação. 

— Isso... creio, assentiu Raquel, abaixando os olhos. 
Félix calou-se. Decorreram dois ou três minutos de silêncio. Raquel continha 
com dificuldade os movimentos do coração. Preferia estar a cem léguas dali, 
mas lembrava-se da outra e isso lhe dava ânimo. 

O médico foi o primeiro que falou: 

— Como sabe que ela me ama? 
— Sei, respondeu Raquel sorrindo com afetação, e é quanto basta. Demais, 
nenhuma moça escreveria semelhante carta a um homem se não tivesse 
certeza do que afirmava. Só lhe peço uma coisa: destrua essa carta. Nada 
vale, mas eu não quisera que a conservasse. 
Lívia aproximava-se; sentiram passos na escada de pedra. Raquel correu à 
porta, enquanto Félix tirava a carteira do bolso, e procurava o bilhete de 
Raquel. Foi nessa ocasião que o coronel e a esposa chegaram. As duas moças 
desceram a recebê-los. Félix desceu também, e caminhou a alguns passos de 
distância, com o coração dividido entre o amor de Lívia e a admiração de 
Raquel. 

Os pais da moça jantaram nas Laranjeiras. Lívia acompanhou depois toda a 
família à cidade. Na ocasião de se despedir do médico, a filha do coronel sentiu 
que as forças lhe iam faltando. Reagiu, porém, sobre si mesma, e sem olhar 
para ele, estendeu-lhe a mão, que o médico respeitosamente apertou. Ao 
voltar-lhe as costas um suspiro lhe saiu do peito; partira-se o último vínculo da 
esperança.