Capítulo 15

ENFANT TERRIBLE 

No dia seguinte, logo cedo, Viana foi à casa do médico. Não ia almoçar com 
ele; ia convidá-lo para jantar. 

— Faço anos hoje, disse o parasita, e quisera ter à mesa alguns amigos, 
poucos. O senhor é dos primeiros, não pode faltar. 
— Não faltarei, respondeu Félix. 
Viana emitiu em seguida algumas idéias a respeito da maneira por que 
encarava um jantar de anos. Não devia compreender senão amigos íntimos, 
por ser festa do coração, alegria doméstica, em que tudo o que não falasse a 
língua da amizade seria estrangeiro ou talvez inimigo. Não bastava gosto para 
a escolha de tais amigos; era preciso jeito e sagacidade para discernir os que 
se prendiam pelo afeto dos que aderiam pelo costume. Esqueceu-lhe o 
principal; esqueceu-lhe dizer que, no seu ponto de vista, um jantar de anos 
era também um jantar a juros. 

Félix aceitou o convite com sofreguidão; esperava um pretexto para voltar à 
casa de Lívia. Pungia-o ainda o ciúme, mas a irritação passara, e em lugar dela 
nascera o desejo de ver restabelecida a harmonia antiga, não por ato de 
vontade própria, mas por uma completa justificação da amada. 

Com tais sentimentos saiu de casa. Lívia estava à janela quando o viu chegar; 
foi recebê-lo no patamar da escada que dava para o jardim. Ao apertar-lhe a 
mão, entre triste e risonha. 

— Era eu que devia perdoar-lhe, disse; mas seria ofender o seu orgulho. 
— O meu orgulho? Perdoar-me? repetiu Félix. 
— Sim, disse ela fazendo um gesto afirmativo. 
Leu-lhe Félix no rosto tão sincera tranqüilidade, que esteve quase a aceitar a 
reconciliação. Hesitou algum tempo; deitou os olhos à sala, e viu atravessá-la 
na direção da escada a figura de Raquel. Então lembrou-lhe a semiconfidência 
que esta lhe fizera, e amargamente respondeu à viúva: 

— Sejamos sérios. 
Lívia empalideceu. Quis responder alguma coisa, e não pôde; Raquel estava 
com eles. 

Pouco depois chegaram o coronel e D. Matilde; Meneses não tardou muito. 
Algumas pessoas mais completavam o pessoal da festa. A presença de 
estranhos constrangia a viúva e o médico; era forçoso ser alegre como os 
outros, e isso custava a ambos, mais ainda a ela que a ele. 

O jantar passou sem novidade de vulto. As pilhérias do coronel, e os brindes 
repetidos de Viana entretiveram a sociedade. Félix tentou seguir a corrente da 
alegria e logrou obtê-lo. Não reparava, — ainda mal! — que a fronte da viúva 
parecia entristecer-se mais; seus olhos procuravam antes os de Meneses que 
os dela. Meneses tinha os seus embebidos nela. 

No fim do jantar Viana propôs que fossem conversar na chácara. Meneses 
pediu que a filha do coronel tocasse primeiro uma melodia que lhe ouvira 

alguns dias antes. Raquel consentiu. A melodia era extremamente melancólica, 
e Raquel tocava-a com alma. O tom da música influiu nos ânimos; não havia 
só o simples silêncio da atenção, mas o recolhimento da tristeza. 

Em alguns dos convivas esta impressão era mais natural e foi mais pronta. O 
médico, entretanto, forcejava, não só por sacudir a estranha influência, como 
por afetar completa isenção de espírito. 

Luís estava em pé diante dele, com os cotovelos fincados nos seus joelhos. 
Félix brincava-lhe com os cabelos, e ambos sorriam um para o outro, como se 
fossem os únicos estranhos à comoção geral. 

Ora, no meio do absoluto silêncio da sala, apenas interrompido pelas notas 
soltas e magoadas que os dedos de Raquel tiravam do piano, o filhinho de Lívia 
fez esta singela pergunta ao médico: 

— Por que é que o senhor não se casa com mamãe? 
Lívia estremeceu. Raquel cessou de tocar e volveu rapidamente a cabeça para 

o grupo donde partira a voz. Dos outros convivas uns sorriam da inocente 
indiscrição do menino, outros observavam a viúva, ninguém reparava em 
Raquel. 
A filha do coronel deixou imediatamente o piano. Viana lembrou então o 
passeio da chácara. Todos aceitaram o alvitre e saíram da sala. A espécie de 
acanhamento que a pergunta do menino deixara em todos, para logo 
desapareceu de alguns. 

Lívia não saíra logo. A alguma distância repararam na falta dela, e Raquel 
propôs-se a ir buscá-la. Achou-a a abraçar e beijar o filho. Conquanto ela fosse 
mãe extremosa, não havia razão imediata para aquela explosão de ternura. 
Raquel estacou sem compreender nada. 

A viúva olhou para ela conchegando o filho ao coração. 

— Que queres? perguntou. 
Raquel não respondeu. A pouco e pouco se lhe ia alumiando o espírito. Olhou 
longo tempo para ela, como se à força quisesse arrancar-lhe a explicação, que 

o seu coração pressentia. Enfim, pareceu adivinhar tudo. 
— Ama-o então? perguntou ela com os lábios trêmulos. 
— Creio que o amei, respondeu Lívia baixando tristemente a cabeça. 
Se o espírito de Raquel não fosse ainda o regaço da castidade, aquela 
confissão mentirosa da viúva, porque ela ainda amava, podia fazer-lhe nascer 
alguma desairosa suspeita. Mas Raquel não viu naquelas palavras mais do que 
um amor medroso e não compreendido. Sua eloqüente resposta foi apertá-la 
nos braços. 

Lívia apertou-a com força. Era a primeira vez que o acaso lhe deparava uma 
confidente. Alteava-se-lhe o seio, túmido de suspiros; duas lágrimas lhe 
romperam dos olhos e foram morrer na espádua de Raquel. O menino 
interrompeu essa doce efusão. Lívia respirou largamente, e beijando com 
ternura a moça, disse: 

— Vamos. 
Mas Raquel não se movia. Tinha os olhos postos nela, os lábios apertados, os 

braços pendentes. Lívia sacudiu-lhe brandamente os ombros. 

— Que tens? disse. 
— Nada, suspirou Raquel. 
Lívia estremeceu. Súbito relâmpago lhe atravessou as sombras do espírito. 
Interrogou-a de novo, mas foi em vão. Então sentiu em si todas as energias do 
seu temperamento, e com um grito, que a cólera abafava, exclamou: 

— Ah! tu o amas também! 
Raquel não lhe respondeu. Se a viúva lhe houvera falado com brandura é 
provável que lhe fizesse plena confissão de seus sentimentos. Mas, às palavras 
coléricas de Lívia, a pobre moça começou a tremer. 

— Tu o amas também! repetiu Lívia com voz surda e concentrada. 
Raquel curvou o corpo, pôs as mãos em atitude de súplica, e murmurou com 
voz trêmula: 

— Perdão! 
Pairou nos lábios da viúva um sorriso sarcástico. Raquel repetiu ainda muitas 
vezes a palavra perdão; mas a única resposta da sua rival foi pegar-lhe do 
braço e indicar-lhe a porta. 

— Vai ter com ele! exclamou. 
Depois saiu arrebatada da sala. Raquel, magoada pela violência do gesto da 
viúva, acompanhou-a com o olhar até à porta. Os olhos da corça ofendida não 
chamejavam ódio contra a leoa irritada.