Capítulo 14

OU CAPÍTULO DO ACASO 

Félix chegou a casa cheio de cólera e desespero. Entrou impetuoso na sala; 
como se precisasse de vingar em alguma coisa a suposta injúria, lançou mão 
do primeiro vaso que se lhe deparou e deitou-o ao chão. O vaso fez-se em 
estilhas. 

— Que é isso? disse uma voz estranha. 
Félix estacou espantado; olhou para o vão de uma janela, donde viera a voz, e 
deu com a figura de Moreirinha, comodamente sentado, com um livro de 
gravuras aberto sobre os joelhos. 

— Sou eu, disse o visitante levantando-se e indo apertar a mão ao dono da 
casa. Admira-se de me ver aqui? Tomei a liberdade de o esperar, a despeito 
das observações que me fez o seu criado. 
Félix não pôde encobrir o desprazer que lhe causava a visita. Moreirinha leu-
lhe isso claramente nos olhos, e continuou: 

— Talvez não lhe seja agradável a minha presença, sobretudo porque me 
parece ter alguma coisa que parece ter alguma coisa que o molesta nesta 
ocasião; mas não podia ser de outro modo... 
Félix levantou os ombros. 

— E maior será ainda o seu desgosto, continuou Moreirinha, quando souber 
que não lhe peço asilo só por uma hora, mas até amanhã. 
Dizendo isto, estendeu-lhe a mão. Félix estendeu-lhe a sua, e friamente lhe 
disse que podia ficar o tempo que quisesse. 

Quando o coração padece não há maior importuno que um conversador 
indiferente e frívolo. Esta circunstância veio ainda azedar mais o espírito de 
Félix. A solidão lhe daria talvez um bálsamo salutar, se o havia para ele. O 
acaso deparou-lhe, entretanto, uma testemunha diante de quem lhe era 
forçoso aparentar a serenidade que não tinha. 

O hóspede compreendeu a situação, e francamente lhe disse que o não queria 
perturbar; viera como asilado, não como visita; não tinha direito às atenções 
do dono da casa. Félix respondeu o melhor que pode a esta cortesia, que aliás 
o obrigava ainda mais. Não havendo meio de escapar, procurou ao menos ser 
igualmente cortês. Demais, Moreirinha não era tão importuno como pareceria, 
porque falava sempre, e não tinha o sestro dessa outra casta de importunos 
que interrompem a cada passo os discursos com perguntas... de boca e de 
gesto. 

Não se demorou o hóspede em dizer a causa que o trouxera ali: era Cecília. 
Apesar da situação em que se achava, Félix não pôde deixar de lhe prestar 
atenção. 

— Cecília? perguntou ele. 
— É verdade: é o meu mau anjo. Lembra-se dos elogios que lhe fiz dela? Eram 
sinceros, e eram também justos naquele tempo. Até então não havia 
encontrado docilidade igual. Não sou piegas, sabe; mas gosto de um episódio 
assim. Não sei que lhe fizeram à boa rapariga, que de todo mudou e veio a ser 
um verdadeiro diabo. Aquelas cadeias tão leves que nos prendiam um ao 
outro, e que eu chamava cadeias de rosas, tornaram-se de ferro pesado. 
Quero fugir-lhe e não posso; tenho tentado tudo para escapar-lhe, mas em 
vão. Escondo-me em casa, na casa dos amigos, nos hotéis; onde quer que 
esteja lá irá buscar-me, e então Deus sabe o que sofro. Hoje lembrou-me vir 
passar aqui o resto do dia e a noite com o senhor; estou certo de que não dará 
comigo. 
Félix ouvira atentamente a exposição do Moreirinha, não sem achar alguma 
relação entre o estado dele e o seu. Moreirinha referiu então muitos episódios 

do que ele chamava sua escravidão. 

— E não conhece nenhum meio de lhe escapar por uma vez? 
— Nenhum; ainda quando eu pudesse sair da corte, estou certo de que ela iria 
buscar-me a bordo do navio ou à portinhola do carro que me levasse. 
Tão notável mudança no caráter de Cecília não deixou de chamar a atenção de 
Félix. Compreendeu facilmente que era obra do próprio amante. A rola fizera-
se gavião, pela única razão de que Moreirinha lhe dera ensejo de conhecer a 
própria força. 

De abatimento em abatimento chegara Moreirinha à miserável posição atual. 
Não era ele homem de salutares reações nem de resignações filosóficas: era, 
sim, homem de fugir e adiar, — caráter feito de inércia e medo, 
maravilhosamente disposto para os desesperos inúteis e as capitulações 
vergonhosas. 

— Mas, por que não sai da corte algum tempo? disse Félix após alguns 
minutos. Sempre há de haver meio de fugir... 
Moreirinha refletiu um instante. 

— Por duas razões, disse ele: a primeira é que, apesar de tudo, não deixo de 
gostar dela, e se pudesse escapar-lhe durante trinta dias, ia no trigésimo 
primeiro procurá-la... 
— A segunda razão... interrompeu Félix a quem parecia incomodar essa 
ingênua confissão. 
— A segunda razão, respondeu Moreirinha com hesitação, é que... não posso. 
Félix desceu os olhos no vestuário do rapaz, e viu nele o comentário das 
palavras que acabava de ouvir. Elegância ainda havia, mas já pobre e rafada; 
os botins tinham sinais de longo serviço; o paletó aliás bem lançado, era de 
fazenda visivelmente inferior. Trazia luvas cor havana, mas ao olhar curioso de 
Félix não escapou a circunstância de que as pontas dos dedos já estavam 
assinaladas por uma leve pasta de cor preta, vestígio de aturado uso. 

Não era preciso grande perspicácia para compreender que aquilo tudo era obra 
de Cecília. Nem ficaria longe da verossimilhança quem afiançasse que 
Moreirinha estava eternamente condenado ao capricho daquela mulher. Não 
tinha decerto o rapaz com que lhe satisfazer todas as vaidades e necessidades; 
ela incumbia-se de abrir outras verbas no orçamento da receita, mediante um 
bem combinado sistema de impostos. 

Félix compreendeu tudo isso de relance, e procurou trazer o espírito de 
Moreirinha a idéias mais alegres, menos ainda por ele que por si. 

Não foi coisa difícil. Ao espírito de Moreirinha repugnavam as preocupações 
graves. Aproveitou o ensejo que o médico lhe ofereceu e entrou a falar das 
coisas correntes do dia. Dos mil episódios da vida de certa classe, não havia 
gazeta melhor informada que o amante de Cecília. Os novos amores de uma, 
os arrufos de outra, o dito chistoso desta, a aventura daquela, tudo ele sabia 
em primeira mão. Não lhe perguntassem por estréias literárias nem crises 
políticas; mas a mobília com que Fulano presenteara a certa dama, a cela 
equívoca em que Sicrano chegara a beber champagne por uma botina, esse 
era domínio seu, desde que os amores de Cecília de todo o separaram da 
sociedade. 

Isto não recreava nem interessava, mas enchia o tempo, e desde que estava 
obrigado a sofrer o hóspede, era melhor sofrê-lo assim. 

Era impossível, entretanto, não volver o espírito à sua própria situação. De 
quando em quando o médico esquecia o narrador, e o seu pensamento ia 
esvoaçar em derredor da viúva. Foi numa dessas ocasiões que lhe chegou uma 
carta dela. Félix abriu-a sofregamente e leu-a duas vezes. Era longa; 
recapitulava a história daqueles últimos meses, e concluía fazendo um apelo à 
razão do médico. Adivinhava-se que a moça escrevera com lágrimas, mas já 
não havia o tom súplice com que em análogas ocasiões lhe pedia a 
reconciliação. 

O tempo alguma obra havia já feito no espírito de Félix; a carta veio consumá-
la. Félix não estava ainda certo da inocência da viúva, mas já estava certíssimo 
da brutalidade da sua explosão, e este reconhecimento era uma dor nova, 
quase tão profunda como a outra. 

Seu primeiro impulso foi ir ter com Lívia; desistiu dele e preferiu escrever-lhe 
uma carta. Três vezes a começou sem lograr chegar ao fim. Vacilava entre ser 
afetuoso ou severo; num caso lembrava-lhe a perfídia possível, noutro, a 
provável inocência; temia ser injusto ou ridículo. Como todos os caracteres 
indecisos, não achou mais recurso que uma inútil desesperação. 

Anoitecera; Moreirinha estava mais alegre que nunca, e pagava a hospitalidade 
do médico com as suas galhofas costumadas. Não contava com Cecília, mas 
adivinhou que era ela quando ouviu parar um carro à porta. 

— Estou perdido! disse ele desatando um longo suspiro. 
Era ela. 

Cansada de esperar que lhe levassem resposta do recado que dera, Cecília 
desceu do carro e entrou em casa. Ao chegar à porta relanceou os olhos pela 
sala, onde não viu desde logo o amante; Moreirinha metera-se no vão de uma 
janela. Félix olhou severamente para Cecília, como quem lhe estranhava a 
liberdade que tomara. Mas onde iam já as flores de antanho? A dócil rapariga 
de outro tempo tornara-se mulher desgarrada e solta. Caminhou afoitamente 
para o médico e estendendo-lhe a mão: 

— Como estás, mon vieux? disse com um risinho de mofa. 
Nessa ocasião descobriu o amante, que parecia entretido em contar as 
estrelas. Foi a ele, e soltava já as primeiras palavras de uma veemente 
apóstrofe, quando Félix julgou prudente intervir a tempo de evitar um 
escândalo; reconciliou-os como pôde, e secamente os despediu. 

Lívia estava à janela desconsolada e triste, enquanto Raquel, não menos triste 
que ela, executava no piano uma melodia adequada à situação de ambas. Não 
viera resposta do médico; a viúva sentia desvanecer-se-lhe a esperança de 
tantos meses, e com ela o futuro que tão perto se lhe afigurava. Estas eram as 
suas melancólicas reflexões, quando viu parar à porta de Félix um carro, 
descer uma mulher, entrar, sair depois com um homem e partirem ambos. 

O golpe foi terrível e mais profundo que nunca. A viúva não temia decerto uma 
rival triunfante; mas via e sentia o desprezo do homem por quem tantas 
lágrimas chorara naquele dia. Se o médico lhe aparecesse então, ela 
reconheceria o seu engano, e a alegria de se sentir estimada lhe daria forças 
contra a dor de se ver ofendida. Félix não veio. Lívia mal pôde resistir à 
humilhação. Uma lágrima, — a última que lhe restava, — foi a única expressão 
do seu imenso desespero.