Advertências

ADVERTÊNCIA DA NOVA EDIÇÃO 

Este foi o meu primeiro romance, escrito aí vão muitos anos. Dado em nova 
edição, não lhe altero a composição nem o estilo, apenas troco dois ou três 
vocábulos, e faço tais ou quais correções de ortografia. Como outros que 
vieram depois, e alguns contos e novelas de então, pertence à primeira fase da 
minha vida literária. 

Machado de Assis
1905. 
ADVERTÊNCIA DA PRIMEIRA EDIÇÃO 

Não sei o que deva pensar deste livro; ignoro sobretudo o que pensará dele o 
leitor. A benevolência com que foi recebido um volume de contos e novelas, 
que há dois anos publiquei, me animou a escrevê-lo. É um ensaio. Vai 
despretensiosamente às mãos da crítica e do público, que o tratarão com a 
justiça que merecer. 

A crítica desconfia sempre da modéstia dos prólogos, e tem razão. Geralmente 
são arrebiques de dama elegante, que se vê ou se crê bonita, e quer assim 
realçar as graças naturais. Eu fujo e benzo-me três vezes quando encaro 
alguns desses prefácios contritos e singelos, que trazem os olhos no pó da sua 
humildade, e o coração nos píncaros da sua ambição. Quem só lhes vê os 
olhos, e lhes diz verdade que amargue, arrisca-se a descair no conceito do 
autor, sem embargo da humildade que ele mesmo confessou, e da justiça que 
pediu. 

Ora pois, eu atrevo-me a dizer à boa e sisuda crítica, que este prólogo não se 
parece com esses prólogos. Venho apresentar-lhe um ensaio em gênero novo 
para mim, e desejo saber se alguma qualidade me chama para ele, ou se todas 
me faltam, — em cujo caso, como em outro campo já tenho trabalhado com 
alguma aprovação, a ele volverei cuidados e esforços. O que eu peço à crítica 
vem a ser — intenção benévola, mas expressão franca e justa. Aplausos, 
quando os não fundamenta o mérito, afagam certamente o espírito e dão 
algum verniz de celebridade; mas quem tem vontade de aprender e quer fazer 
alguma coisa, prefere a lição que melhora ao ruído que lisonjeia. 

No extremo verdor dos anos presumimos muito de nós, e nada, ou quase 
nada, nos parece escabroso ou impossível. Mas o tempo, que é bom mestre, 
vem diminuir tamanha confiança, deixando-nos apenas a que é indispensável a 
todo o homem, e dissipando a outra, a confiança pérfida e cega. Com o tempo, 
adquire a reflexão o seu império, e eu incluo no tempo a condição do estudo, 
sem o qual o espírito fica em perpétua infância. 

Dá-se então o contrário do que era dantes. Quanto mais versamos os modelos, 
penetramos as leis do gosto e da arte, compreendemos a extensão da 
responsabilidade, tanto mais se nos acanham as mãos e o espírito, posto que 
isso mesmo nos esperte a ambição, não já presunçosa, senão refletida. Esta 
não é talvez a lei dos gênios, a quem a natureza deu o poder quase 
inconsciente das supremas audácias; mas é, penso eu, a lei das aptidões 
médias, a regra geral das inteligências mínimas. 

Eu cheguei já a esse tempo. Grato às afáveis palavras com que juízes 
benévolos me têm animado, nem por isso deixo de hesitar, e muito. Cada dia 
que passa me faz conhecer melhor o agro destas tarefas literárias, — nobres e 
consoladoras, é certo, — mas difíceis quando as perfaz a consciência. 

Minha idéia ao escrever este livro foi pôr em ação aquele pensamento de 
Shakespeare: 

Our doubts are traitors, 
And make us lose the good we oft might win, 
By fearing to attempt. 

Não quis fazer romance de costumes; tentei o esboço de uma situação e o 
contraste de dois caracteres; com esses simples elementos busquei o interesse 
do livro. A crítica decidirá se a obra corresponde ao intuito, e sobretudo se o 
operário tem jeito para ela. 

É o que lhe peço com o coração nas mãos. 

Machado de Assis
1872.