Agosto de 1889

Agosto de 1889

29 de agosto
Chegou paquete da Europa, trouxe cartas de Lisboa e notícias políticas. As cartas eram saudosas, e as notícias interessantes; aliás só vieram ŕ noite. Na rua tinha-me Aguiar dito o que havia nas cartas de Tristăo e de Fidélia e na que a comadre escrevera a D. Carmo; fui vę-las ao Flamengo. A da comadre era cheia de louvores ŕ nora; que achava mais bela que no retrato, e mais terna que ninguém; foram as próprias palavras dela, e para uma sogra năo me destoaram muito. Assim o disse a D. Carmo, que sorria complacente, com uma espécie de ternura mórbida. Éramos sós os tręs, e a saudade grande.
Pouco depois chegou Campos. Vinha aturdido, e ao dar comigo pareceu querer falar-me em particular. Em particular, a um canto, disse-me que Tristăo lhe escrevera dizendo achar-se eleito deputado quando desembarcou em Lisboa, e pedindo-lhe que desse a notícia ŕ gente Aguiar como entendesse melhor; năo lhes escrevia a eles sobre isso para evitar o sobressalto. Que me parecia?
— Sempre se lhes há de dizer tudo, respondi; o melhor é que seja logo, e aqui estamos para dizer as coisas cautelosamente.
— Também me parece.
— Eu engenharei uma fábula...
Engenhei o que pude. Falei do golpe que o moço recebeu quando desembarcou deputado, e viu misturadas as alegrias dos pais com as dos amigos políticos; devia dizer também que a primeira idéia de Tristăo foi rejeitar o diploma e vir para Santa-Pia; mas que o partido, os chefes, os pais... Năo fui tăo longe; seria mentir demais. Ao cabo, năo teria tempo. Os dois velhos ficaram fulminados, a mulher verteu algumas lágrimas silenciosas, e o marido cuidou de lhas enxugar.
Assim correram as coisas, a mentira e os efeitos. Os dois procuramos levantar-lhes o ânimo. Eu empreguei algumas reflexőes e metáforas, afirmando que eles viriam este ano mesmo ou no princípio do outro; bastava saberem a dor que causava aqui a notícia.
D. Carmo năo parecia ouvir-me, nem ele; olhavam para lá, para longe, para onde se perde a vida presente, e tudo se esvai depressa. Aguiar ainda pegou na carta que o desembargador lhe mostrava; leu para si as palavras de Tristăo, que eram aborrecidas em si mesmas, além da nota que o autor intencionalmente lhes pôs. D. Carmo pediu-lha com o gesto, ele meteu-a na carteira. A boa velha năo insistiu. Campos e eu saímos pouco depois.
30 de agosto
Praia fora (esqueceu-me notar isto ontem) praia fora viemos falando daquela orfandade ŕs avessas em que os dois velhos ficavam, e eu acrescentei, lembrando-me do marido defunto:
— Desembargador, se os mortos văo depressa, os velhos ainda văo mais depressa que os mortos... Viva a mocidade!
Campos năo me entendeu, nem logo, nem completamente. Tive entăo de lhe dizer que aludia ao marido defunto, e aos dois velhos deixados pelos dois moços, e concluí que a mocidade tem o direito de viver e amar, e separar-se alegremente do extinto e do caduco. Năo concordou, — o que mostra que ainda entăo năo me entendeu completamente.
Sem data
Há seis ou sete dias que eu năo ia ao Flamengo. Agora ŕ tarde lembrou-me lá passar antes de vir para casa. Fui a pé; achei aberta a porta do jardim, entrei e parei logo.
— Lá estăo eles, disse comigo.
Ao fundo, ŕ entrada do saguăo, dei com os dois velhos sentados, olhando um para o outro. Aguiar estava encostado ao portal direito, com as măos sobre os joelhos. D Carmo, ŕ esquerda, tinha os braços cruzados ŕ cinta. Hesitei entre ir adiante ou desandar o caminho; continuei parado alguns segundos até que recuei pé ante pé. Ao transpor a porta para a rua, vi-lhes no rosto e na atitude uma expressăo a que năo acho nome certo ou claro; digo o que me pareceu. Queriam ser risonhos e mal se podiam consolar. Consolava-os a saudade de si mesmos.

FIM