Abril de 1889

Abril de 1889

4 de abril
Năo esperava por esta. Tristăo veio pedir-me que lhe sirva de padrinho ao casamento. Năo podia negar-lho, e aceitei o convite, ainda que sem grande gosto. Aí tinha ele o Aguiar, ou o Campos, mas enfim, quero ajudar a felicidade de todos. Deu-me outros pormenores: casamento ŕ capucha, entre onze horas e meio-dia, almoço no Flamengo, em família, e os dois serăo levados ŕ Prainha modestamente, embarcarăo ali para Petrópolis. Minúcias escusadas, mas tudo se deve escutar com interesse a um coraçăo que ama.
8 de abril
— Sabe o que D. Fidélia me escreveu agora? perguntou-me Aguiar. Que o Banco tome a si vender Santa-Pia.
— Creio que já ouvi falar nisso...
— Sim, há tempos, mas era idéia que podia passar; vejo agora que năo passou.
— Os libertos tęm continuado no trabalho?
— Tęm, mas dizem que é por ela.
Năo me lembra se fiz alguma reflexăo acerca da liberdade e da escravidăo, mas é possível, năo me interessando em nada que Santa-Pia seja ou năo vendida. O que me interessa particularmente é a fazendeira, — esta fazendeira da cidade, que vai casar na cidade. Já se fala no casamento com alguma insistęncia, bastante admiraçăo, e provavelmente inveja. Năo falta quem pergunte pelo Noronha. Onde está o Noronha? Mas que fim levou o Noronha?
Năo săo muitos que perguntam, mas as mulheres săo mais numerosas, — ou porque as afligiam as lágrimas de Fidélia, — ou porque achem Tristăo interessante, — ou porque năo neguem beleza ŕ viúva. Também pode ser que as tręs razőes concorram juntas para tanta curiosidade; mas, enfim, a pergunta faz-se, e a resposta é um gesto parecido com esta ou outra resposta equivalente: — Ah! minha amiga (ou meu amigo), se eu fosse a indagar onde param os mortos, andaria o infinito e acabaria na eternidade.
É engenhoso, mas năo é bom, principalmente năo é certo. Os mortos param no cemitério, e lá vai ter a afeiçăo dos vivos, com as suas flores e recordaçőes. Tal sucederá ŕ própria Fidélia, quando para lá for; tal sucede ao Noronha, que lá está. A questăo é que virtualmente năo se quebre este laço, e que a lei da vida năo destrua o que foi da vida e da morte. Creio nas afeiçőes de Fidélia; chego a crer que as duas formam uma só, continuada.
Quando eu era do corpo diplomático efetivo năo acreditava em tanta coisa junta, era inquieto e desconfiado; mas, se me aposentei foi justamente para crer na sinceridade dos outros. Que os efetivos desconfiem!
15 de abril
Já se năo vende Santa-Pia, năo por falta de compradores, ao contrário; em cinco dias apareceram logo dois, que conhecem a fazenda, e só o primeiro recusou o preço. Năo se vende; é o que me disseram hoje de manhă. Concluí que o casal Tristăo iria lá passar o resto dos seus dias. Podia ser, mas é ainda mais inesperado.
O que ouvi depois é que Tristăo, sabendo da resoluçăo da viúva, formulou um plano e foi comunicar-lho. Năo o fez nos próprios termos claros e diretos, mas por insinuaçăo. Uma vez que os libertos conservam a enxada por amor da sinhá-moça, que impedia que ela pegasse da fazenda e a desse aos seus cativos antigos? Eles que a trabalhem para si. Năo foi bem assim que lhe falou; pôs-lhe uma nota voluntariamente seca, em maneira que lhe apagasse a cor generosa da lembrança. Assim o interpretou a própria Fidélia, que o referiu a D. Carmo, que mo contou, acrescentando:
— Tristăo é capaz da intençăo e do disfarce, mas eu também acho possível que o principal motivo fosse arredar qualquer suspeita de interesse no casamento. Seja o que for, parece que assim se fará.
— E andam críticos a contender sobre romantismos e naturalismos!
Parece que D. Carmo năo me achou graça ŕ exclamaçăo, e eu mesmo năo lhe acho graça nem sentido. Aplaudi a mudança do plano, e aliás o novo me parece bem. Se eles năo tęm de ir viver na roça, e năo precisam do valor da fazenda, melhor é dá-la aos libertos. Poderăo estes fazer a obra comum e corresponder ŕ boa vontade da sinhá-moça? É outra questăo, mas năo se me dá de a ver ou năo resolvida; há muita outra coisa neste mundo mais interessante.
19 de abril
Tristăo, a quem falei da doaçăo de Santa-Pia, năo me confiou os seus motivos secretos; disse-me só que Fidélia vai assinar o documento amanhă ou depois. Estávamos no Carceler tomando café. Ouvi-lhe também dizer que recebeu cartas de Lisboa, duas políticas; instam por ele. Quis saber se acudiria ao chamado, mas o gesto com que ele via subir o fumo do charuto parecia mirar tăo somente a noiva, o altar e a felicidade; năo ousei passar adiante.
Saindo do Carceler, ouvi-lhe que ia fazer uma encomenda; talvez algum presente para a noiva, mas năo me disse o que era, nem o destino. Falou-me, sim, da madrinha e da amizade que ela lhe tem; ao que redargüi, confirmando:
— Posso dizer-lhe que é grande.
— É grande e antiga.
Contou-me entăo o que eu já sei, anedotas da infância e da adolescęncia, e nisto me entreteve andando alguns minutos largos; parece-me realmente bom e amigo. A idade em que foi daqui e o tempo que tem vivido lá fora dăo a este moço uma pronúncia mesclada do Rio e de Lisboa que lhe năo fica mal, ao contrário. Despedimo-nos ŕ porta de um ourives; há de ser alguma jóia.
28 de abril
Lá se foi Santa-Pia para os libertos que a receberăo provavelmente com danças e com lágrimas; mas também pode ser que esta responsabilidade nova ou primeira...