Outubro de 1888

Outubro de 1888

2 de outubro
Estou melhor, mas choveu e năo saí.
3 de outubro
— Foi um duelo entre mim e a velhice, que me disparou esta bala no joelho; uma dor reumática. Já sei que vem jantar comigo?
O desembargador respondeu que năo; disseram-lhe que eu estava doente e vinha saber o que era. D. Carmo também está melhor do joelho, disse-me. Já sai, mas pouco, pela Praia do Flamengo, até ŕ do Russell.
— Sempre com a amiguinha, năo?
— Nem sempre; lá tem o seu Tristăo que a acompanha de manhă. Fidélia manda-lhe visitas, e pode ser que Aguiar venha cá hoje; souberam ontem, ŕ noite, como eu.
Logo depois contou-me Campos que a sobrinha queria ir passar algum tempo ŕ fazenda.
— Os libertos, apesar da amizade que lhe tęm ou dizem ter, começaram a deixar o trabalho, e ela quer ver como está aquilo antes de concluir a venda de tudo.
Năo entendi bem, mas năo me cabia pedir explicaçăo. Campos incumbiu-se de me dizer que também ele năo entendia bem a idéia da sobrinha, e acrescentou que, por gosto, ela partiria já. A doença de D. Carmo é que a fez aceitar o que lhe propôs o tio, a saber, que adiassem a viagem para as férias.
— Iremos pelas férias, concluiu ele; provavelmente já o trabalho estará parado de todo; o administrador, que năo tem tido força para deter a saída dos libertos até hoje, năo a terá até entăo. Fidélia cuida que a presença dela bastará para suspender o abandono.
— Logo, se for mais depressa... aventurei eu, querendo sorrir.
— Foi o argumento dela; eu creio que năo será tanto assim, e, como tenho de a acompanhar, prefiro dezembro a outubro. Quer-me parecer que ela teme menos a fuga dos libertos que outra coisa...
Năo acabou; levantou-se para consertar um laço da cortina, e voltou coçando o queixo e olhando para o teto. Sentou-se e cruzou as pernas. Eu, para me năo deixar ir a perguntas, peguei do gesto do desembargador, dizendo-lhe que ele acabava de fazer com as pernas o que ainda me custaria um pouco; mas foi como se falasse ŕ cortina, ao laço ou ŕ palhinha do chăo. Campos năo me respondeu nem provavelmente me ouviu. Ergueu-se, disse que estimava as minhas melhoras e despediu-se até breve. Teimei que jantasse.
— Năo posso; tenho gente de fora; o Tristăo janta comigo.
Para lhe mostrar que convalescia, fui ao patamar pisando rijo. Agradeci-lhe o obséquio da visita, e tornei ŕ sala, com a viúva diante dos olhos, caminho da fazenda. Mas que terá que a faça ir meter-se na fazenda, com meia dúzia de libertos, se ainda achar alguns? Pouco depois, outra visita, o Aguiar, que me trazia lembranças da mulher. Estimou ver-me de pé, no meio da sala.
— Năo valia a pena, disse-lhe; foi uma coisa de nada, estou quase bom, e hoje mesmo, se a chuva parar, como está querendo, lá vou levá-lo ŕ casa, depois do jantar. Janta comigo?
— Năo posso; tenho gente de fora. Uma das pessoas năo me impediria, é a Fidélia, que lá janta conosco, e é quase da família. Mas vai também um colega do banco.
— Pois irei tomar chá.
— Vá, se quer, mas năo faça isso, é o meu conselho. Ainda que năo chova, sempre haverá umidade, e para reumatismo...
— Mas D. Carmo tem saído, creio.
— Tem, e pode-se dizer que está boa. Apesar disso, já hoje năo saiu, por causa do tempo. Vá, se quer; eu no seu caso năo saía.
Aguiar năo disse mais nada, e despediu-se. Pareceu-me (ou foi ilusăo) que ele queria acrescentar alguma coisa e năo acabou de querer. Năo sei que seria. Năo sentisse eu mesmo algum medo da umidade e iria vę-los ŕ noite, mas a umidade é certa, e creio que a chuva também. Fico em casa. Se aparecer algum enxadrista, jogarei xadrez; se apenas jogar cartas, cartas. Se năo vier ninguém, atiro-me a compor um poema de cabeça.
6 de outubro
Mana Rita, mana Rita
Foi a última visita,
e o resto do poema em prosa, que a minha musa năo dá para mais. Foi assim que o compus, năo na outra noite, a de 3, mas na de hoje, 6, depois de levar a mana a Andaraí. Apareceu-me aqui de manhă. Já outros, amigos e até indiferentes, me tinham visitado, como aquele Dr. Faria, que me deixou lembranças da mulher, e o corretor Miranda, que também mas trouxe da sua. Tristăo esteve cá anteontem, e eu saí ŕ tarde e ontem de manhă. Estou bom, nem por isso deixei de lhe chamar ingrata. Rita confessou-me que há mais de tręs semanas năo sai de casa para ver se tinha um irmăo que se lembrasse dela.
— Tinha e tem, retorqui-lhe, mas um irmăo que só agora convalesceu de todo.
Contei-lhe a dor e a reclusăo. Rita, que a princípio năo queria crer e ria, acabou convencida e contristada. Censurou-me naturalmente; eu disse-lhe que continuava a guardá-la para a doença mortal e última. Assim trocamos muitas palavras amigas e doces, algumas alegres. Como lhe perguntasse se estivera com a gente Aguiar ou com a família Campos, respondeu-me que năo. Se fosse a uma daquelas casas teria sabido do meu incômodo, e năo receberia a notícia aqui, acrescentou.
— Entăo vocę năo sabe nada do projeto de ir ŕ fazenda? perguntei-lhe.
— Projeto de quem?
— Da viúva Noronha.
— Ir ŕ fazenda?
— Sim, ir a Santa-Pia, para ver como andam lá as coisas; parece que os libertos estăo abandonando a roça. Foi o que me disse o tio da viúva.
— Năo ouvi dizer nada. Há perto de um męs que năo saio de casa. Mas o tio por que năo vai?
— O tio vai, mas é com ela; a sobrinha quer a companhia dele, mas só a companhia, parece, năo quererá também a colaboraçăo. Văo pelas férias. Eu năo compreendo esta necessidade de ir ela mesma, quando era melhor um homem.
Rita quis ir saber da própria Fidélia. Ponderei-lhe que era indiscreto, e faria crer da nossa parte alguma curiosidade. Saiu a voltas, e tornou. Confesso uma coisa; depois que a vi sair imaginei se teria ido saber da viúva ou dos amigos a verdadeira causa da viagem, e disse-lho ao jantar. Ela ficou séria e abanou a cabeça. Se me tem jurado que năo, é provável que me enterrasse o espinho da dúvida, mas falou com simplicidade, e nomeou as visitas que fez. Uma delas foi a D. Carmo.
— Carmo está să como um pęro, disse-me; recebeu-me rindo como só ela sabe rir, um rir de dentro, tăo simples, tăo franco... Falamos de Fidélia, falamos de Tristăo, ela com a ternura e amizade que vocę já lhe tem visto.
— Ainda năo sabe da viagem ŕ fazenda?
— Sabe, e parece que nem esperam as férias; é daqui a dias. Sabe da viagem e do motivo, e aprova; diz que a viúva tem muito prestígio entre os libertos. Se pudesse iria também, mas Aguiar năo ficaria só, e ele năo pode deixar agora o banco.
— Mas ele năo ficaria só; o Tristăo aí está.
— Năo, por duas razőes; a primeira é que Tristăo nem ninguém supre a boa Carmo. A viagem que ela fez este ano a Nova Friburgo custou muito ao marido. Năo foi ela que me disse isto; eu é que soube, e percebe-se, todos sabem; Aguiar sem Carmo é nada. A segunda razăo é que o próprio Tristăo está com vontade de acompanhar o desembargador e Fidélia; nunca viu uma fazenda, e tem vontade, antes de voltar para Lisboa...
— E a nossa amiga, diante desse eclipse dos dois, năo está aborrecida?
— Foi o que lhe perguntei; disse-me que é por poucos dias, e espera; em todo caso, se houver demora dos outros, Tristăo virá embora. Quer passar com ela e o marido o mais tempo que puder.
Mana Rita (percebe-se) está com vontade de achar algum defeito grande no afilhado do Aguiar, mas năo acha nenhum, grande ou pequeno, e pesa-lho. O bem que diz dele é repetiçăo confessada do que ouviu. Eu năo penso mal, antes bem, creio que já o escrevi em algumas destas páginas; mas năo disse se bem nem mal. Deixei-me ficar a condenar o meu pobre jantar, que foi ruim, só o frango prestou e a fruta, menos as peras...
Ao café, mana Rita contou-me algumas anedotas de Andaraí, aonde a fui levar, seriam dez horas, e donde voltei para escrever isto, acabar e repetir como principiei:
Mana Rita, mana Rita,
Foi a última visita.
10 de outubro
Entendam lá mulheres! Tanta necessidade de ir ŕ fazenda e já. Campos alcança uma licença de alguns dias, Tristăo apronta a mala, e, tudo feito, cessa a necessidade de partir. Foram só o Campos e o Tristăo. Tal a notícia que me deram as duas (Carmo e Fidélia) hoje, ŕ tarde, quando eu ia a entrar no jardim da casa do Flamengo. As duas vinham chegando ao portăo.
— Năo fui, confirmou Fidélia as primeiras palavras de D. Carmo. Um homem basta e sobra, e acaba depressa todas as dúvidas. Também as notícias agora săo melhores.
— Lucram os seus amigos, retorqui.
D. Carmo disse o mesmo que eu, mas sem palavras, com os olhos apenas. Como iam a passeio, dispus-me a acompanhá-las, depois de algumas notícias que trocamos, D. Carmo e eu, sobre os nossos reumatismos; estamos bons. As duas iam de braço, eu ao lado, entre elas e o mar que năo batia com força. A conversaçăo năo foi constante, porque a viúva levava os olhos no chăo. A amiga falava-me, mas olhava de quando em quando para ela, e eu também. Fidélia falava pouco, e só entăo olhava para a outra.
O passeio foi curto; tornei com elas ao jardim, aonde pouco depois chegou Aguiar trazendo cartas de Lisboa para Tristăo, tręs ou quatro. Conhecia a letra de uma, era do pai, e provavelmente havia dentro outra da măe, tăo volumosa era. A idéia de as mandar para Santa-Pia passara-lhe pela cabeça, mas recuou por năo saber se o rapaz voltará amanhă ou depois, ou se ficará mais tempo. Se voltar já, espera; se ficar, manda-lhas. Queria consultar a mulher.
D. Carmo achou mais prático escrever-lhe um bilhete perguntando quando conta vir, para lhe mandar ou năo a correspondęncia. Fidélia năo sabia nada da volta do tio. Acha provável que fique alguns dias mais para dar as últimas providęncias e coligir as notas necessárias ŕ venda da casa e das terras; ia vendę-las, por intermédio do Banco do Sul, mas nem ela nem Aguiar sabiam nada positivamente.
Eu, convidado a opinar, disse que o rapaz, sabendo de correspondęncia numerosa e presumindo alguma dela política, pediria logo a remessa, se năo viesse abri-la em pessoa. A segunda hipótese năo foi mal acolhida pela madrinha; pareceu-lhe certa. Ao cabo, que faria ele lá depois de ver a fazenda? A fazenda naturalmente via-se depressa, năo tendo ele nenhuma coisa de recordaçăo pessoal, ou costume velho que reviver. Assim disse eu, por outras palavras, e os dois concordaram comigo. Como perguntasse a Fidélia se năo sentiria saudades da casa em que nasceu e se criou, respondeu-me que sim, mas já năo terá gosto em lá viver.
— Aquilo agora é para măos de homem, concluiu.
Estas palavras foram ouvidas por D. Carmo, com vivo prazer. Aguiar provavelmente teria a mesma sensaçăo, mas saíra ŕ calçada para falar a um vizinho, e năo as ouviu. Quando voltou, achou que me despedia das duas senhoras, e nem por isso deixou de me pedir que ficasse e jantasse. Recusei, e saí. Andando, ouvi que ele dizia ŕ mulher e ŕ amiga:
— Quem sabe o que trarăo estas cartas?
Em caminho, arrependi-me de năo ter ficado para jantar. Ouviria o grande talento que arrancou a voz exclamativa ao Tristăo. Năo seria novo para mim, mas seria mais uma vez, conquanto pareça que ela anda a recusar-se agora ao piano. E verdade que talvez os dois a văo levar ŕ noite a Botafogo. Também pode ser que ela durma ali hoje, em casa dos pais postiços.
12 de outubro
Aguiar e D. Carmo foram ontem levar a amiga a Botafogo, e voltaram cedo. Assim o soube hoje por ele, ŕ porta do banco, onde me achava a conversar com o corretor Miranda. Nenhuma notícia de Tristăo, mas o bilhete do padrinho já está no correio, e segue hoje mesmo para Santa-Pia.
Que as asas postais o levem, digo eu aqui neste cantinho de papel, sem advertir no rebuscado da imagem. Advirto agora, e năo a risco nem substituo; asas postais servem, uma vez que văo ter ŕ fazenda e năo percam o bilhete em caminho. Quer-me parecer que também eu estou curioso de saber o que trazem as tais cartas de Lisboa, curioso apenas, e aliás năo admira que desta vez săo numerosas e bastas; escrevem-se geralmente pouco. Seja o que for os dois velhos estăo ansiosos de saber se o mandam voltar de cá. Năo o dizem, mas vę-se.
Miranda continuou a dizer das saudades que a mulher, a cunhada Cesária, o cunhado Faria, toda a casa dele tem de mim; — coisas que ouvi agradecido, prometendo ir devolvę-las em pessoa um dia destes. Em suma, o corretor năo é mau homem, e já me serviu uma vez em negócio do seu ofício. Usa a nota alegre, sem juvenilidade, e acha grande interesse em coisas que nenhum tem.
13 de outubro
Campos escreveu ŕ sobrinha, referindo-lhe o estado da fazenda, e contando os passeios que deu por ela com o moço Tristăo. Este é curioso e discreto no exame das coisas que vę e nas notícias que pede. Lá está o capelăo, e mais o juiz municipal. A carta é anterior ao bilhete do Aguiar, năo fala nele, mas diz que Tristăo năo se demorará muito; conta vir daqui a dias.
D. Carmo espera que os dias serăo abreviados logo que ele receba o bilhete do marido. Năo mo disse a mim, quando lá estive ontem, ŕ noite, nem o ouvi a ninguém; eu é que pensei haver-lho lido no rosto. A carta do desembargador foi-lhe levada pela própria Fidélia, que lá estava ontem, e desta vez tocou piano, năo sei se tăo bem como Tristăo, mas bem; os dois podiam tocar juntos. Éramos apenas cinco; o estudante primo de Fidélia viera trazę-la e tornou com ela para Botafogo, ŕs dez horas.
17 de outubro
Chegou Tristăo. Ignoro o que terá lido nas cartas de Lisboa, năo falei a nenhuma das pessoas que poderiam sabę-lo. Irei ao Flamengo um dia destes, amanhă.
Hoje conto năo sair de casa, que faço anos. Chego aos meus sessenta e... Năo escrevas todo o algarismo, querido velho; basta que o saiba teu coraçăo e vá sendo contado pelo Tempo no livro de lucros e perdas. Năo escrevas tudo, querido amigo.
Năo saio de casa. Se a mana Rita vier jantar, como fez o ano passado, irei levá-la ŕ noite a Andaraí. Se năo vier, deixo-me ficar sozinho.
Vou ocupar o tempo em reler uns papéis velhos que o meu criado José achou dentro de uma velha mala e me trouxe agora. A cara dele tinha a expressăo de prazer que dá o serviço inesperado; aquele gosto de descobrir papéis que podem ser importantes fazia-o risonho, olhos escancarados, quase comovido.
— V. Ex.a talvez os procure há muito tempo.
Eram cartas, apontamentos, minutas, contas, um inferno de lembranças que era melhor năo se terem achado. Que perdia eu sem elas? Já năo curava delas; provavelmente năo me fariam falta. Agora estou entre estes dois extremos, ou lę-las primeiro, ou queimá-las já. Inclino-me ao segundo. Ante mim continuava o meu José com a mesma expressăo de gosto que lhe deu o achado. Naturalmente agradecia ŕ sua boa Fortuna que lho deparou; contará que é mais um elo que nos prenda. Talvez a idéia que o levou ŕ mala fosse a esperança de algum valor extraviado, uma jóia, por exemplo, ou ainda menos, uma camisa, um colete, um lenço, e sendo assim o silęncio era muito possível. Achou papéis velhos, veio fielmente entregar-mos.
Năo lhe quero mal por isso. Năo lho quis no dia em que descobri que ele me levava dos coletes, ao escová-los, dois ou tręs tostőes por dia. Foi há dois meses, e possivelmente já o faria antes, desde que entrou cá em casa. Năo me zanguei com ele; tratei de acautelar os níqueis, isso sim; mas, para que năo se creia descoberto, lá deixo alguns, uma vez ou outra, que ele pontualmente diminui; năo me vendo zangar é provável que me chame nomes feios, descuidado, tonto, papalvo que seja... Năo lhe quero mal do furto nem dos nomes. Ele serve bem e gosta de mim; podia levar mais e chamar-me pior.
Resolvo mandar queimar os papéis, ainda que dę grande mágoa ao José que imaginou haver achado recordaçőes grandes e saudades. Poderia dizer-lhe que a gente traz na cabeça outros papéis velhos que năo ardem nunca nem se perdem por malas antigas; năo me entenderia.
17 de outubro, duas horas
Começo a receber cartőes de visita pelo dia de hoje, entre eles os do casal Aguiar e do Tristăo, e um de Fidélia. A viúva escreveu estas palavras: cumprimentos de boa amizade. Agora me lembra que no dia 12, quando a encontrei no Flamengo, em casa do Aguiar, usei desta expressăo "boa amizade", como a mais doce que podia desejar dela; foi um modo de concluir o elogio discreto que lhe fazia, apoiando a outro que D. Carmo lhe fazia também. Daí este cumprimento de hoje. O bilhete de Tristăo traz a fórmula admirativa, os dos Aguiares afeto e apreço. Rita năo me escreveu; certamente virá jantar.
Meia -noite
Veio, veio, Rita veio jantar com a alegria do costume, e examinou todas as cartas e cartőes de cumprimentos. Explicou-me que estivera ontem no Flamengo, onde dera notícia do meu aniversário; daí as cortesias de hoje.
Ouvindo isto, năo me pude ter que lhe năo falasse das cartas que aguardavam o Tristăo. Disse-me que sabia delas; eram dos pais e de amigos políticos. Entre as primeiras vinha uma para D. Carmo, com um post scriptum para o marido. Depois de alguma hesitaçăo, perguntei-lhe se instavam pela volta dele.
— Os pais năo, respondeu-me Rita; os amigos năo sei, apenas ouvi de D. Carmo que eles falam muito da política de lá. E dizia-me isto um pouco aborrecida, como receosa, e ela teme já a separaçăo; entretanto, é a coisa mais natural do mundo.
— Tristăo năo disse nada?
— Que eu ouvisse, nada. Passei lá uma boa meia hora de conversa, e o principal assunto foi a visita de Tristăo a Santa-Pia, que ele achou interessante como documento de costumes. Gostou de ver a varanda, a senzala antiga, a cisterna, a plantaçăo, o sino. Chegou a desenhar algumas coisas. Fidélia ouvia tudo com muito interesse, e perguntava também, e ele lhe respondia.
— Ela vai sempre vender a fazenda?
— Năo ouvi falar disso.
— Vai, vai vendę-la. Ao menos, era plano há tempos, e o desembargador lá ficou para cuidar de apontamentos. Ele quando vem?
— Ouvi dizer que daqui a oito ou sete dias; duas semanas, quando muito.
— Fidélia jantou com eles, naturalmente?
— Năo. Quando eu saí ŕs quatro horas, Carmo pediu-me que ficasse. Tendo de fazer outra visita, recusei. Fidélia disse entăo que aproveitava a minha companhia. A outra instou com ela que jantasse, mas a amiga alegou que era esperada em casa e năo podia; voltaria hoje ou amanhă. Carmo e Tristăo acompanharam-nos ŕ porta do jardim. Eu e Fidélia viemos andando, e, ao chegar ŕ esquina da Rua da Princesa, năo me lembrou logo voltar a cabeça. Fidélia lembrou-se, eu imitei-a, e os dois parados na calçada diziam-nos adeus com a măo.
Rita contou-me que foi até Botafogo com a viúva Noronha. De caminho falaram pouco, ou antes Fidélia é que năo falou muito; ia preocupada. Apesar disso, mostrou-se o que sempre foi, afável, quase meiga; pareceu interessar-se pela vida de Rita, confessou saudades, sentia que se năo vissem mais vezes, e pediu desculpa de năo ir, há muito, a Andaraí. Se as palavras eram poucas, năo eram secas, ao contrário.
Naturalmente falaram de D. Carmo e de Aguiar; também disseram alguma coisa de Tristăo, concordaram que parecia amigo dos padrinhos.
Perto da casa do tio, Fidélia entrou em uma fábrica de flores para encomendar as que levará no dia 2 de novembro ŕ sepultura do marido. Rita, que aliás năo pensara ainda nisso, deixou de encomendar as suas; fá-lo-á quando o dia dos mortos estiver mais próximo, e trá-las-á consigo da cidade. Referiu-me as encomendas da viúva, a escolha, as exigęncias, o número de grinaldas, tręs, e a composiçăo das cores que teriam; năo quis deixar nada ao fabricante.
Ouvi todas essas minúcias e ainda outras com interesse. Sempre me sucedeu apreciar a maneira por que os caracteres se exprimem e se compőem, e muita vez năo me desgosta o arranjo dos próprios fatos. Gosto de ver e antever, e também de concluir. Esta Fidélia foge a alguma coisa, se năo foge a si mesma. Querendo dizer isto a Rita, usei do conselho antigo, dei sete voltas ŕ língua, primeiro que falasse, e năo falei nada; a mana podia entornar o caldo. Também pode ser que me engane.
Năo escrevo o resto. Quando ela acabou e contou o regresso, perguntei-lhe por que năo viera ontem jantar comigo. Respondeu-me que, tendo de vir hoje, năo queria ser convidada de véspera. Ri-me e fomos para a mesa, que estava posta. Ao centro um ramo de flores, idéia dela, que o mandou trazer ŕs escondidas, e, como eu lhe perguntasse se eram das que Fidélia encomendara, riu-se também. Agradeci-lhe a lembrança, exprimindo-lhe todo o meu afeto, comemos alegremente, recordando anedotas da infância e da família.
18 de outubro
Ao levantar da cama, a primeira idéia que me acudiu foi aquela que escrevi ontem, ŕ meia-noite: "Esta moça (Fidélia) foge a alguma coisa, se năo foge a si mesma".
22 de outubro
Fidélia năo voltou ao Flamengo, apesar da promessa que D. Carmo lhe fez fazer. D. Carmo fora achá-la a pintar; Fidélia lembrara-se de haver pintado em menina, e começara um trecho do jardim da própria casa. Prometeu voltar ao Flamengo no dia seguinte, e năo foi.
Tristăo, ao saber do motivo da ausęncia, advertiu que a viúva Noronha podia ter em pintura talento igual ao da música, e năo sei se lho chamou grande; năo mo disse. Que ele mesmo é que me referiu o que aí fica, e mais o que vou incluir nesta página antes que me esqueça. Tinha vindo almoçar comigo.
— Venho almoçar, conselheiro; voltando agora do meu passeio, lembrou-me subir e perguntar por V. Ex.a. O seu criado disse-me que ia almoçar; ouso pedir-lhe um lugar ŕ mesa.
— Um, dois, tręs, doutor, acudi eu, quantos a sua amizade pedir para o seu apetite.
Deu-me notícias da gente Aguiar; estăo bons; falou-me dos seus e das cartas políticas de Lisboa. Já as leu ao padrinho e ŕ madrinha. Uma só delas alude ao desejo de o ver tornar breve: "esperamos que năo se demorará muito no Rio de Janeiro".
— E demora-se muito? perguntei-lhe.
— Năo sei, mas é natural que pouco; a política chama-me.
Ao almoço é que Tristăo me contou a história da tela que a viúva está pintando, da promessa que fez ŕ amiga e năo cumpriu. E disse-me depois:
— Se ela sabe pintar pareceu-me que, melhor quadro que o seu jardim, é um trecho marinho do Flamengo, por exemplo, com a serra ao longe, a entrada da barra, alguma das ilhas, uma lancha, etc. A madrinha concordou logo, e foi propor ŕ amiga a troca do quadro. Agradou-lhe este outro, prometeu vir ao Flamengo desenhá-lo, e năo veio.
— É que está namorada do seu jardim. Geralmente os artistas sentem melhor as próprias imaginaçőes. Ela ainda saberá pintar, como diz que pintou em menina?
— A madrinha viu-lhe apenas algumas linhas de desenho, e pareceram-lhe boas.
Concordamos que deviam ser boas. Uma coisa traz outra, falamos das graças da viúva, da compostura, da discriçăo, da memória das viagens, do gosto, dos gestos e creio que dos olhos também. Eu, com certeza, falei dos olhos, e agora me lembra que ele disse serem juntamente lindos e graves. Opiniăo ou diversăo, acrescentou que os olhos das suas antigas patrícias eram em geral belos, e falou compridamente de outras damas; assim năo parecia louvar somente a viúva Noronha. Achei isto bem, como eqüidade e como estética. No meio da conversaçăo tive uma idéia; disse-lhe que D. Carmo, que lhes queria tanto, em vez de propor ŕ amiga a simples tela da praia, devia propor-lha com alguma figura humana. A dele ficaria bem para lhe lembrar, quando ele partisse, a pessoa do filho pintada pela filha. Tristăo ouviu sorrindo isto que lhe disse; depois repetiu, como quem pensava:
— A pessoa do filho pintada pela filha...
Năo ponho aqui o sorriso porque foi uma mistura de desejo, de esperança e de saudade, e eu năo sei descrever nem pintar. Mas foi, foi isso mesmo que aí digo, se as tręs palavras podem dar idéia da mistura, ou se a mistura năo era ainda maior. Daí saltamos ŕs galerias de arte da Europa, e falamos do que sabíamos. Quando demos por nós, tínhamos acabado de almoçar. Ofereci-lhe charutos e o meu coraçăo. Quero dizer que lhe pedi viesse muitas vezes dar-me aquela hora deliciosa. Retorquiu-me que dá-la năo, mas tomá-la para si. Era a volta do cumprimento, e com graça.
Despediu-se e saiu. Quis sair logo, mas vim primeiro escrever isto, para que me năo esqueça, como lá digo atrás. E agora que o escrevi confirmo a impressăo que me deixou o rapaz, e foi boa, como a princípio. Talvez ele tenha alguma dissimulaçăo, além de outros defeitos de sociedade, mas neste mundo a imperfeiçăo é coisa precisa. Pronto; vou sair, e amanhă ou depois irei saber da paisagem ou da marinha da bela Fidélia.
28 de outubro
Nem marinha nem paisagem, năo soube de nada. Fidélia năo tem aparecido no Flamengo, e escreveu hoje ŕ velha amiga um bilhete de desculpas; está tomando as contas ao tio, que voltou ontem da fazenda. Năo me lembra se já escrevi que o Banco do Sul é que fará a transferęncia de Santa-Pia.
D. Carmo, a pretexto do estilo, deu-me o bilhete a ler. Tem graça, decerto, mas o verdadeiro motivo é a ternura que ela sente em ler a amiga e fazę-la ler aos outros. Depois que lho restituí, leu-o outra vez para si. Já devia trazę-lo de cor. Em meio disto achou modo de aprovar a minha idéia do filho pintado pela filha, ouvida ao Tristăo.
— Hei de dizę-la a Fidélia.
Tristăo năo estava presente; fora jantar com um ministro. Francamente, era mais fácil ŕ moça prometer que pintar a marinha. O que a boa Carmo disse que faria penso que o năo fará; năo irá propor ŕ viúva que venha copiar a figura do afilhado na marinha do Flamengo. A familiaridade que haja porventura entre eles năo se ajustará muito a esta açăo de arte, incômoda ou năo sei que diga...
Suspendo aqui a pena para ir dormir, e escreverei amanhă o resto da noite.
29 de outubro
O resto da noite foi passado em casa do Faria. Eram anos dele e estive lá mais tempo do que contava. Havia gente e alegria, algum canto e piano, e também conversa.
Faria, apesar do dia e da festa, ria mal, ria sério, ria aborrecido, năo acho forma de dizer que exprima com exaçăo a verdade. É um desses homens nascidos para enfadar, todo arestas, todo secura. A mulher, D. Cesária, estava alegre e tinha a pilhéria do costume. Năo disse mal de ninguém por falta de tempo, năo de matéria, creio; tudo é matéria a línguas agudas. A maneira por que aprovava alguma coisa era quase sarcástica, e difícil de entender a quem năo tivesse a prática e o gosto destas criaturas, como eu, velho maldizente que sou também. Ou serei o contrário, quem sabe? No primeiro dia de chuva implicante hei de fazer a análise de mim mesmo.
Quando saí de lá, Faria agradeceu-me, com o seu prazer nasal e surdo, — assim defino as palavras que lhe ouvi, acompanhadas de um fugaz sorriso de cárcere.