Janeiro de 1888

Janeiro de 1888

9 de janeiro
Ora bem, faz hoje um ano que voltei definitivamente da Europa. O que me lembrou esta data foi, estando a beber café, o pregăo de um vendedor de vassouras e espanadores: "Vai vassouras! vai espanadores!" Costumo ouvi-lo outras manhăs, mas desta vez trouxe-me ŕ memória o dia do desembarque, quando cheguei aposentado ŕ minha terra, ao meu Catete, ŕ minha língua. Era o mesmo que ouvi há um ano, em 1887, e talvez fosse a mesma boca.
Durante os meus trinta e tantos anos de diplomacia algumas vezes vim ao Brasil, com licença. O mais do tempo vivi fora, em várias partes, e năo foi pouco. Cuidei que năo acabaria de me habituar novamente a esta outra vida de cá. Pois acabei. Certamente ainda me lembram coisas e pessoas de longe, diversőes, paisagens, costumes, mas năo morro de saudades por nada. Aqui estou, aqui vivo, aqui morrerei.
Cinco horas da tarde
Recebi agora um bilhete de mana Rita, que aqui vai colado:
9 de janeiro
“Mano,
Só agora me lembrou que faz hoje um ano que vocę voltou da Europa aposentado. Já é tarde para ir ao cemitério de Săo Joăo Batista, em visita ao jazigo da família, dar graças pelo seu regresso; irei amanhă de manhă, e peço a vocę que me espere para ir comigo. Saudades da
Velha mana,
Rita”.
Năo vejo necessidade disso, mas respondi que sim.
10 de janeiro
Fomos ao cemitério. Rita, apesar da alegria do motivo, năo pôde reter algumas velhas lágrimas de saudade pelo marido que lá está no jazigo, com meu pai e minha măe. Ela ainda agora o ama, como no dia em que o perdeu, lá se văo tantos anos. No caixăo do defunto mandou guardar um molho dos seus cabelos, entăo pretos, enquanto os mais deles ficaram a embranquecer cá fora.
Năo é feio o nosso jazigo; podia ser um pouco mais simples, — a inscriçăo e uma cruz, — mas o que está é bem feito. Achei-o novo demais, isso sim. Rita fá-lo lavar todos os meses, e isto impede que envelheça. Ora, eu creio que um velho túmulo dá melhor impressăo do oficio, se tem as negruras do tempo, que tudo consome. O contrário parece sempre da véspera.
Rita orou diante dele alguns minutos, enquanto eu circulava os olhos pelas sepulturas próximas. Em quase todas havia a mesma antiga súplica da nossa: "Orai por ele! Orai por ela!" Rita me disse depois, em caminho, que é seu costume atender ao pedido das outras, rezando uma prece por todos os que ali estăo. Talvez seja a única. A mana é boa criatura, năo menos que alegre.
A impressăo que me dava o total do cemitério é a que me deram sempre outros; tudo ali estava parado. Os gestos das figuras, anjos e outras, eram diversos, mas imóveis. Só alguns pássaros davam sinal de vida, buscando-se entre si e pousando nas ramagens, pipilando ou gorjeando. Os arbustos viviam calados, na verdura e nas flores.
Já perto do portăo, ŕ saída, falei a mana Rita de uma senhora que eu vira ao pé de outra sepultura, ao lado esquerdo do cruzeiro, enquanto ela rezava. Era moça, vestia de preto, e parecia rezar também, com as măos cruzadas e pendentes. A cara năo me era estranha, sem atinar quem fosse. E bonita, e gentilíssima, como ouvi dizer de outras em Roma.
— Onde está?
Disse-lhe onde estava. Quis ver quem era. Rita, além de boa pessoa, é curiosa, sem todavia chegar ao superlativo romano. Respondi-lhe que esperássemos ali mesmo, ao portăo.
— Năo! pode năo vir tăo cedo, vamos espiá-la de longe. É assim bonita?
— Pareceu-me.
Entramos e enfiamos por um caminho entre campas, naturalmente. A alguma distância, Rita deteve-se.
— Vocę conhece, sim. Já a viu lá em casa, há dias.
— Quem é?
— É a viúva Noronha. Vamos embora, antes que nos veja.
Já agora me lembrava, ainda que vagamente, de uma senhora que lá apareceu em Andaraí, a quem Rita me apresentou e com quem falei alguns minutos.
— Viúva de um médico, năo é?
— Isso; filha de um fazendeiro da Paraíba do Sul, o Barăo de Santa-Pia.
Nesse momento, a viúva descruzava as măos, e fazia gesto de ir embora. Primeiramente espraiou os olhos, como a ver se estava só. Talvez quisesse beijar a sepultura, o próprio nome do marido, mas havia gente perto, sem contar dois coveiros que levavam um regador e uma enxada, e iam falando de um enterro daquela manhă. Falavam alto, e um escarnecia do outro, em voz grossa: "Eras capaz de levar um daqueles ao morro? Só se fossem quatro como tu". Tratavam de caixăo pesado, naturalmente, mas eu voltei depressa a atençăo para a viúva, que se afastava e caminhava lentamente, sem mais olhar para trás. Encoberto por um mausoléu, năo a pude ver mais nem melhor que a princípio. Ela foi descendo até o portăo, onde passava um bonde em que entrou e partiu. Nós descemos depois e viemos no outro.
Rita contou-me entăo alguma coisa da vida da moça e da felicidade grande que tivera com o marido, ali sepultado há mais de dois anos. Pouco tempo viveram juntos. Eu, năo sei por que inspiraçăo maligna, arrisquei esta reflexăo:
— Năo quer dizer que năo venha a casar outra vez.
— Aquela năo casa.
— Quem lhe diz que năo?
— Năo casa; basta saber as circunstâncias do casamento, a vida que tiveram e a dor que ela sentiu quando enviuvou.
— Năo quer dizer nada, pode casar; para casar basta estar viúva.
— Mas eu năo casei.
— Vocę é outra coisa, vocę é única.
Rita sorriu, deitando-me uns olhos de censura, e abanando a cabeça, como se me chamasse "peralta". Logo ficou séria, porque a lembrança do marido fazia-a realmente triste. Meti o caso ŕ bulha; ela, depois de aceitar uma ordem de idéias mais alegre, convidou-me a ver se a viúva Noronha casava comigo; apostava que năo.
— Com os meus sessenta e dois anos?
— Oh! năo os parece; tem a verdura dos trinta.
Pouco depois chegamos a casa e Rita almoçou comigo. Antes do almoço, tornamos a falar da viúva e do casamento, e ela repetiu a aposta. Eu, lembrando-me de Goethe, disse-lhe:
— Mana, vocę está a querer fazer comigo a aposta de Deus e de Mefistófeles; năo conhece?
— Năo conheço.
Fui ŕ minha pequena estante e tirei o volume do Fausto, abri a página do prólogo no Céu, e li-lha, resumindo como pude. Rita escutou atenta o desafio de Deus e do Diabo, a propósito do velho Fausto, o servo do Senhor, e da perda infalível que faria dele o astuto. Rita năo tem cultura, mas tem finura, e naquela ocasiăo tinha principalmente fome. Replicou rindo:
— Vamos almoçar. Năo quero saber desses prólogos nem de outros; repito o que disse, e veja vocę se refaz o que lá vai desfeito. Vamos almoçar.
Fomos almoçar; ŕs duas horas Rita voltou para Andaraí, eu vim escrever isto e vou dar um giro pela cidade.
12 de janeiro
Na conversa de anteontem com Rita esqueceu-me dizer a parte relativa a minha mulher, que lá está enterrada em Viena. Pela segunda vez falou-me em transportá-la para o nosso jazigo. Novamente lhe disse que estimaria muito estar perto dela, mas que, em minha opiniăo, os mortos ficam bem onde caem; redargüiu-me que estăo muito melhor com os seus.
— Quando eu morrer, irei para onde ela estiver, no outro mundo, e ela virá ao meu encontro, disse eu.
Sorriu, e citou o exemplo da viúva Noronha que fez transportar o marido de Lisboa, onde faleceu, para o Rio de Janeiro, onde ela conta acabar. Năo disse mais sobre este assunto, mas provavelmente tornará a ele, até alcançar o que lhe parece. Já meu cunhado dizia que era seu costume dela, quando queria alguma coisa.
Outra coisa que năo escrevi foi a alusăo que ela fez ŕ gente Aguiar, um casal que conheci a última vez que vim, com licença, ao Rio de Janeiro, e agora encontrei. Săo amigos dela e da viúva, e celebram daqui a dez ou quinze dias as suas bodas de prata. Já os visitei duas vezes e o marido a mim. Rita falou-me deles com simpatia e aconselhou-me a ir cumprimentá-los por ocasiăo das festas aniversárias.
— Lá encontrará Fidélia.
— Que Fidélia?
— A viúva Noronha.
— Chama-se Fidélia?
— Chama-se.
— O nome năo basta para năo casar.
— Tanto melhor para vocę, que vencerá a pessoa e o nome, e acabará casando com a viúva. Mas eu repito que năo casa.
14 de janeiro
A única particularidade da biografia de Fidélia é que o pai e o sogro eram inimigos políticos, chefes de partido na Paraíba do Sul. Inimizade de famílias năo tem impedido que moços se amem, mas é preciso ir a Verona ou alhures. E ainda os de Verona dizem comentadores que as famílias de Romeu e de Julieta eram antes amigas e do mesmo partido; também dizem que nunca existiram, salvo na tradiçăo ou somente na cabeça de Shakespeare.
Nos nossos municípios, ao norte, ao sul e ao centro, creio que năo há caso algum. Aqui a oposiçăo dos rebentos continua a das raízes, e cada árvore brota de si mesma, sem lançar galhos a outra, e esterilizando-lhe o terreno, se pode. Eu, se fosse capaz de ódio, era assim que odiava; mas eu năo odeio nada nem ninguém, — perdono a tutti, como na ópera.
Agora, como foi que eles se amaram, — os namorados da Paraíba do Sul, — é o que Rita me năo referiu, e seria curioso saber. Romeu e Julieta aqui no Rio, entre a lavoura e a advocacia, — porque o pai do nosso Romeu era advogado na cidade da Paraíba, — é um desses encontros que importaria conhecer para explicar. Rita năo entrou nesses pormenores; eu, se me lembrar, hei de pedir-lhos. Talvez ela os recuse imaginando que começo deveras a morrer pela dama.
16 de janeiro
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Tăo depressa vinha saindo do Banco do Sul encontrei Aguiar, gerente dele, que para lá ia. Cumprimentou-me muito afetuosamente, pediu-me notícias de Rita, e falamos durante alguns minutos sobre coisas gerais.
Isso foi ontem. Hoje pela manhă recebi um bilhete de Aguiar, convidando-me, em nome da mulher e dele, a ir lá jantar no dia 24. Săo as bodas de prata. "Jantar simples e de poucos amigos", escreveu ele. Soube depois que é festa recolhida. Rita vai também. Resolvi aceitar, e vou.
20 de janeiro
Tręs dias metido em casa, por um resfriamento com pontinha de febre. Hoje estou bom, e segundo o médico, posso já sair amanhă; mas poderei ir ŕs bodas de prata dos velhos Aguiares? Profissional cauteloso, o Dr. Silva me aconselhou que năo vá; mana Rita, que tratou de mim dois dias, é da mesma opiniăo. Eu năo a tenho contrária, mas se me achar lépido e robusto, como é possível, custar-me-á năo ir. Veremos; tręs dias passam depressa.
Seis horas da tarde
Gastei o dia a folhear livros, e reli especialmente alguma coisa de Shelley e também de Thackeray. Um consolou-me de outro, este desenganou-me daquele; é assim que o engenho completa o engenho, e o espírito aprende as línguas do espírito.
Nove horas da noite
Rita jantou comigo; disse-lhe que estou săo como um pęro, e com forças para ir ŕs bodas de prata. Ela, depois de me aconselhar prudęncia, concordou que, se năo tiver mais nada, e for comedido ao jantar, posso ir; tanto mais que os meus olhos terăo lá dieta absoluta.
— Creio que Fidélia năo vai, explicou.
— Năo vai?
— Estive hoje com o Desembargador Campos, que me disse haver deixado a sobrinha com a nevralgia do costume. Padece de nevralgias. Quando elas lhe aparecem é por dias, e năo văo sem muito remédio e muita pacięncia. Talvez vá visitá-la amanhă ou depois.
Rita acrescentou que para o casal Aguiar é meio desastre; contavam com ela, como um dos encantos da festa. Querem-se muito, eles a ela, e ela a eles, e todos se merecem, é o parecer de Rita e pode vir a ser o meu.
— Creio. Já agora, se me năo sentir impedido, irei sempre. Também a mim parece boa gente a gente Aguiar. Nunca tiveram filhos?
— Nunca. Săo muito afetuosos, D. Carmo ainda mais que o marido. Vocę năo imagina como săo amigos um do outro. Eu năo os freqüento muito, porque vivo metida comigo, mas o pouco que os visito basta para saber o que valem, ela principalmente. O Desembargador Campos, que os conhece desde muitos anos, pode dizer-lhe o que eles săo.
— Haverá muita gente ao jantar?
— Năo; creio que pouca. A maior parte dos amigos irá de noite. Eles săo modestos, o jantar é só dos mais íntimos, e por isso o convite que fizeram a vocę mostra grande simpatia pessoal.
— Já senti isso, quando me apresentaram a eles, há sete anos, mas entăo supus que era mais por causa do ministro que do homem. Agora, quando me receberam, foi com muito gosto. Pois lá vou no dia 24, haja ou năo haja Fidélia.
25 de janeiro
Lá fui ontem ŕs bodas de prata. Vejamos se posso resumir agora as minhas impressőes da noite.
Năo podiam ser melhores. A primeira delas foi a uniăo do casal. Sei que năo é seguro julgar por uma festa de algumas horas a situaçăo moral de duas pessoas. Naturalmente a ocasiăo aviva a memória dos tempos passados, e a afeiçăo dos outros como que ajuda a duplicar a própria. Mas năo é isso. Há neles alguma coisa superior ŕ oportunidade e diversa da alegria alheia. Senti que os anos tinham ali reforçado e apurado a natureza, e que as duas pessoas eram, ao cabo, uma só e única. Năo senti, năo podia sentir isto logo que entrei, mas foi o total da noite.
Aguiar veio receber-me ŕ porta da sala, — eu diria que com uma intençăo de abraço, se pudesse havę-la entre nós e em tal lugar; mas a măo fez esse ofício, apertando a minha efusivamente. É homem de sessenta anos feitos (ela tem cinqüenta), corpo antes cheio que magro, ágil, ameno e risonho. Levou-me ŕ mulher, a um lado da sala, onde ela conversava com duas amigas. Năo era nova para mim a graça da boa velha, mas desta vez o motivo da visita e o teor do meu cumprimento davam-lhe ŕ expressăo do rosto algo que tolera bem a qualificaçăo de radiante. Estendeu-me a măo, ouviu-me e inclinou a cabeça, olhando de relance para o marido.
Senti-me objeto dos cuidados de ambos. Rita chegou pouco depois de mim; vieram vindo outros homens e senhoras, todos de mim conhecidos, e vi que eram familiares da casa. Em meio da conversaçăo, ouvi esta palavra inesperada a uma senhora, que dizia a outra:
— Năo vá Fidélia ter ficado pior.
— Ela vem? perguntou a outra.
— Mandou dizer que vinha; está melhor; mas talvez lhe faça mal.
O mais que as duas disseram, relativamente ŕ viúva, foi bem. O que me dizia um dos convidados apenas foi ouvido por mim, sem lhe prestar atençăo maior que o assunto nem perder as aparęncias dela. Pela hora próxima do jantar supus que Fidélia năo viesse. Supus errado. Fidélia e o tio foram os últimos chegados, mas chegaram. O alvoroço com que D. Carmo a recebeu mostrava bem a alegria de a ver ali, apenas convalescida, e apesar do risco de voltar ŕ noite. O prazer de ambas foi grande.
Fidélia năo deixou inteiramente o luto; trazia ŕs orelhas dois corais, e o medalhăo com o retrato do marido, ao peito, era de ouro. O mais do vestido e adorno escuro. As jóias e um raminho de miosótis ŕ cinta vinham talvez em homenagem ŕ amiga. Já de manhă lhe enviara um bilhete de cumprimentos acompanhando o pequeno vaso de porcelana, que estava em cima de um móvel com outros presentinhos aniversários.
Ao vę-la agora, năo a achei menos saborosa que no cemitério, e há tempos em casa de mana Rita, nem menos vistosa também. Parece feita ao torno, sem que este vocábulo dę nenhuma idéia de rigidez; ao contrário, é flexível. Quero aludir somente ŕ correçăo das linhas, — falo das linhas vistas; as restantes adivinham-se e juram-se. Tem a pele macia e clara, com uns tons rubros nas faces, que lhe năo ficam mal ŕ viuvez. Foi o que vi logo ŕ chegada, e mais os olhos e os cabelos pretos; o resto veio vindo pela noite adiante, até que ela se foi embora. Năo era preciso mais para completar uma figura interessante no gesto e na conversaçăo. Eu, depois de alguns instantes de exame, eis o que pensei da pessoa. Năo pensei logo em prosa, mas em verso, e um verso justamente de Shelley, que relera dias antes, em casa, como lá ficou dito atrás, e tirado de uma das suas estâncias de 1821:
I can give not what men call love.
Assim disse comigo em inglęs, mas logo depois repeti em prosa nossa a confissăo do poeta, com um fecho da minha composiçăo: "Eu năo posso dar o que os homens chamam amor... e é pena!”
Esta confissăo năo me fez menos alegre. Assim, quando D. Carmo veio tomar-me o braço, segui como se fosse para um jantar de núpcias. Aguiar deu o braço a Fidélia, e sentou-se entre ela e a mulher. Escrevo estas indicaçőes sem outra necessidade mais que a de dizer que os dois cônjuges, ao pé um do outro, ficaram ladeados pela amiga Fidélia e por mim. Desta maneira pudemos ouvir palpitar o coraçăo aos dois, — hipérbole permitida para dizer que em ambos nós, em mim ao menos, repercutia a felicidade daqueles vinte e cinco anos de paz e consolaçăo.
A dona da casa, afável, meiga, deliciosa com todos, parecia realmente feliz naquela data; năo menos o marido. Talvez ele fosse ainda mais feliz que ela, mas năo saberia mostrá-lo tanto. D. Carmo possui o dom de falar e viver por todas as feiçőes, e um poder de atrair as pessoas, como terei visto em poucas mulheres, ou raras. Os seus cabelos brancos, colhidos com arte e gosto, dăo ŕ velhice um relevo particular, e fazem casar nela todas as idades. Năo sei se me explico bem, nem é preciso dizer melhor para o fogo a que lançarei um dia estas folhas de solitário.
De quando em quando, ela e o marido trocavam as suas impressőes com os olhos, e pode ser que também com a fala. Uma só vez a impressăo visual foi melancólica. Mais tarde ouvi a explicaçăo a mana Rita. Um dos convivas, — sempre há indiscretos, — no brinde que lhes fez aludiu ŕ falta de filhos, dizendo "que Deus lhos negara para que eles se amassem melhor entre si". Năo falou em verso, mas a idéia suportaria o metro e a rima, que o autor talvez houvesse cultivado em rapaz; orçava agora pelos cinqüenta anos, e tinha um filho. Ouvindo aquela referęncia, os dois fitaram-se tristes, mas logo buscaram rir, e sorriram. Mana Rita me disse depois que essa era a única ferida do casal. Creio que Fidélia percebeu também a expressăo de tristeza dos dois, porque eu a vi inclinar-se para ela com um gesto do cálice e brindar a D. Carmo cheia de graça e ternura:
— Ŕ sua felicidade.
A esposa Aguiar, comovida, apenas pôde responder logo com o gesto; só instantes depois de levar o cálice ŕ boca, acrescentou, em voz meio surda, como se lhe custasse sair do coraçăo apertado esta palavra de agradecimento:
— Obrigada.
Tudo foi assim segredado, quase calado. O marido aceitou a sua parte do brinde, um pouco mais expansivo, e o jantar acabou sem outro rasto de melancolia.
De noite vieram mais visitas; tocou-se, tręs ou quatro pessoas jogaram cartas. Eu deixei-me estar na sala, a mirar aquela porçăo de homens alegres e de mulheres verdes e maduras, dominando a todas pelo aspecto particular da velhice de D. Carmo, e pela graça apetitosa da mocidade de Fidélia; mas a graça desta trazia ainda a nota da viuvez recente, aliás de dois anos. Shelley continuava a murmurar ao meu ouvido para que eu repetisse a mim mesmo: I can give not what men call love.
Quando transmiti esta impressăo a Rita, disse ela que eram desculpas de mau pagador, isto é, que eu, temendo năo vencer a resistęncia da moça, dava-me por incapaz de amar. E pegou daqui para novamente fazer a apologia da paixăo conjugal de Fidélia.
— Todas as pessoas daqui e de fora que os viram, — continuou, — podem dizer a vocę o que foi aquele casal. Basta saber que se uniram, como já lhe disse, contra a vontade dos dois pais, e amaldiçoados por ambos. D. Carmo tem sido confidente da amiga, e năo repete o que lhe ouve por discreta, resume só o que pode, com palavras de afirmaçăo e de admiraçăo. Tenho-as ouvido muita vez. A mim mesma Fidélia conta alguma coisa. Converse com o tio... Olhe, ele que lhe diga também da gente Aguiar...
Neste ponto interrompi:
— Pelo que ouço, enquanto eu andava lá fora, a representar o Brasil, o Brasil fazia-se o seio de Abraăo. Vocę, o casal Aguiar, o casal Noronha, todos os casais, em suma, faziam-se modelos de felicidade perpétua.
— Pois peça ao desembargador que lhe diga tudo.
— Outra impressăo que levo desta casa e desta noite é que as duas damas, a casada e a viúva, parecem amar-se como măe e filha, năo é verdade?
— Creio que sim.
— A viúva também năo tem filhos?
— Também năo. É um ponto de contato.
— Há um ponto de desvio; é a viuvez de Fidélia.
— Isso năo; a viuvez de Fidélia está com a velhice de D. Carmo; mas se vocę acha que é desvio tem nas suas măos concertá-lo, é arrancar a viúva ŕ viuvez, se puder; mas năo pode, repito.
A mana năo costuma dizer pilhérias, mas quando lhe sai alguma tem pico. Foi o que eu lhe disse entăo, ao metę-la no carro que a levou a Andaraí, enquanto eu vim a pé para o Catete. Esqueceu-me dizer que a casa Aguiar é na Praia do Flamengo, ao fundo de um pequeno jardim, casa velha mas sólida.
Sábado
Ontem encontrei um velho conhecido do corpo diplomático e prometi ir jantar com ele amanhă em Petrópolis. Subo hoje e volto segunda-feira. O pior é que acordei de mau humor, e antes quisera ficar que subir. E daí pode ser que a mudança de ar e de espetáculo altere a disposiçăo do meu espírito. A vida, mormente nos velhos, é um ofício cansativo.
Segunda -feira
Desci hoje de Petrópolis. Sábado, ao sair a barca da Prainha, dei com o Desembargador Campos a bordo, e foi um bom encontro, porque daí a pouco o meu mau humor cedia, e cheguei a Mauá já meio curado. Na estaçăo de Petrópolis estava restabelecido inteiramente.
Năo me lembra se já escrevi neste Memorial que o Campos foi meu colega de ano em Săo Paulo. Com o tempo e a ausęncia perdemos a intimidade, e quando nos vimos outra vez, o ano passado, apesar das recordaçőes escolásticas que surgiram entre nós, éramos estranhos. Vimo-nos algumas vezes, e passamos uma noite no Flamengo; mas a diferença da vida tinha ajudado o tempo e a ausęncia.
Agora na barca fomos reatando melhor os laços antigos. A viagem por mar e por terra era de sobra para avivar alguma coisa da vida escolar. Bastante foi; acabamos lavados da velhice.
Ao subir a serra as nossas impressőes divergiram um tanto. Campos achava grande prazer na viagem que íamos fazendo em trem de ferro. Eu confessava-lhe que tivera maior gosto quando ali ia em caleças tiradas a burros, umas atrás das outras, năo pelo veículo em si, mas porque ia vendo, ao longe, cá embaixo, aparecer a pouco e pouco o mar e a cidade com tantos aspectos pinturescos. O trem leva a gente de corrida, de afogadilho, desesperado, até ŕ própria estaçăo de Petrópolis. E mais lembrava as paradas, aqui para beber café, ali para beber água na fonte célebre, e finalmente a vista do alto da serra, onde os elegantes de Petrópolis aguardavam a gente e a acompanhavam nos seus carros e cavalos até ŕ cidade; alguns dos passageiros de baixo passavam ali mesmo para os carros onde as famílias esperavam por eles.
Campos continuou a dizer todo o bem que achava no trem de ferro, como prazer e como vantagem. Só o tempo que a gente poupa! Eu, se retorquisse dizendo-lhe bem do tempo que se perde, iniciaria uma espécie de debate que faria a viagem ainda mais sufocada e curta. Preferi trocar de assunto e agarrei-me aos derradeiros minutos, falei do progresso, ele também, e chegamos satisfeitos ŕ cidade da serra.
Os dois fomos para o mesmo hotel (Bragança). Depois de jantar saímos em passeio de digestăo, ao longo do rio. Entăo, a propósito dos tempos passados, falei do casal Aguiar e do conhecimento que Rita me disse que ele tinha da vida e da mocidade dos dois cônjuges. Confessei achar nestes um bom exemplo de aconchego e uniăo. Talvez a minha intençăo secreta fosse passar dali ao casamento da própria sobrinha dele, suas condiçőes e circunstâncias, coisa difícil pela curiosidade que podia exprimir, e aliás năo está nos meus hábitos, mas ele năo me deu azo nem tempo. Todo este foi pouco para dizer da gente Aguiar. Ouvi com pacięncia, porque o assunto entrou a interessar-me depois das primeiras palavras, e também porque o desembargador fala muito agradavelmente. Mas agora é tarde para transcrever o que ele disse; fica para depois, um dia, quando houver passado a impressăo, e só me ficar de memória o que vale a pena guardar.