Fevereiro de 1888

Fevereiro de 1888

4 de fevereiro
Eia, resumamos hoje o que ouvi ao desembargador em Petrópolis acerca do casal Aguiar. Năo ponho os incidentes, nem as anedotas soltas, e até excluo os adjetivos que tinham mais interesse na boca dele do que lhes poderia dar a minha pena; văo só os precisos ŕ compreensăo de coisas e pessoas.
A razăo que me leva a escrever isto é a que entende com a situaçăo moral dos dois, e prende um tanto com a viúva Fidélia. Quanto ŕ vida deles ei-la aqui em termos secos, curtos e apenas biográficos. Aguiar casou guarda-livros. D. Carmo vivia entăo com a măe, que era de Nova Friburgo, e o pai, um relojoeiro suíço daquela cidade. Casamento a grado de todos. Aguiar continuou guarda-livros, e passou de uma casa a outra e mais outra, fez-se sócio da última, até ser gerente de banco, e chegaram ŕ velhice sem filhos. É só isto, nada mais que isto. Viveram até hoje sem bulha nem matinada.
Queriam-se, sempre se quiseram muito, apesar dos ciúmes que tinham um do outro, ou por isso mesmo. Desde namorada, ela exerceu sobre ele a influęncia de todas as namoradas deste mundo, e acaso do outro, se as há tăo longe. Aguiar contara uma vez ao desembargador os tempos amargos em que, ajustado o casamento, perdeu o emprego por falęncia do patrăo. Teve de procurar outro; a demora năo foi grande, mas o novo lugar năo lhe permitiu casar logo, era-lhe preciso assentar a măo, ganhar confiança, dar tempo ao tempo. Ora, a alma dele era de pedras soltas; a fortaleza da noiva foi o cimento e a cal que as uniram naqueles dias de crise. Copio esta imagem que ouvi ao Campos, e que ele me disse ser do próprio Aguiar. Cal e cimento valeram-lhe logo em todos os casos de pedras desconjuntadas. Ele via as coisas pelos seus próprios olhos, mas se estes eram ruins ou doentes, quem lhe dava remédio ao mal físico ou moral era ela.
A pobreza foi o lote dos primeiros tempos de casados. Aguiar dava-se a trabalhos diversos para acudir com suprimentos ŕ escassez dos vencimentos. D. Carmo guiava o serviço doméstico, ajudando o pessoal deste e dando aos arranjos da casa o conforto que năo poderia vir por dinheiro. Sabia conservar o bastante e o simples; mas tăo ordenadas as coisas, tăo completadas pelo trabalho das măos da dona que captavam os olhos ao marido e ŕs visitas. Todas elas traziam uma alma, e esta era nada menos que a mesma, repartida sem quebra e com alinho raro, unindo o gracioso ao preciso. Tapetes de mesa e de pés, cortinas de janelas e outros mais trabalhos que vieram com os anos, tudo trazia a marca da sua fábrica, a nota íntima da sua pessoa. Teria inventado, se fosse preciso, a pobreza elegante.
Criaram relaçőes variadas, modestas como eles e de boa camaradagem. Neste capítulo a parte de D. Carmo é maior que a de Aguiar. Já em menina era o que foi depois. Havendo estudado em um colégio do Engenho Velho, a moça acabou sendo considerada a primeira aluna do estabelecimento, năo só sem desgosto, tácito ou expresso, de nenhuma companheira, mas com prazer manifesto e grande de todas, recentes ou antigas. A cada uma pareceu que se tratava de si mesma. Era entăo algum prodígio de talento? Năo, năo era; tinha a inteligęncia fina, superior ao comum das outras, mas năo tal que as reduzisse a nada. Tudo provinha da índole afetuosa daquela criatura.
Dava-lhe esta o poder de atrair e conchegar. Uma coisa me disse Campos que eu havia observado de relance naquela noite das bodas de prata, é que D. Carmo agrada igualmente a velhas e a moças. Há velhas que năo sabem fazer-se entender de moças, assim como há moças fechadas ŕs velhas. A senhora de Aguiar penetra e se deixa penetrar de todas; assim foi jovem, assim é madura.
Campos năo os acompanhou sempre, nem desde os primeiros tempos; mas quando entrou a freqüentá-los, viu nela o desenvolvimento da noiva e da recém-casada, e compreendeu a adoraçăo do marido. Este era feliz, e para sossegar das inquietaçőes e tédios de fora, năo achava melhor respiro que a conversaçăo da esposa, nem mais doce liçăo que a de seus olhos. Era dela a arte fina que podia restituí-lo ao equilíbrio e ŕ paz.
Um dia, em casa deles, abrindo uma coleçăo de versos italianos, Campos achou entre as folhas um papelinho velho com algumas estrofes escritas. Soube que eram do livro, copiadas por ela nos dias de noiva, segundo ambos lhe disseram, vexados; restituiu o papel ŕ página, e o volume ŕ estante. Um e outro gostavam de versos, e talvez ela tivesse feito alguns, que deitou fora com os últimos solecismos de família. Ao que parece, traziam ambos em si um gérmen de poesia instintiva, a que faltara expressăo adequada para sair cá fora.
A última reflexăo é minha, năo do Desembargador Campos, e leva o único fim de completar o retrato deste casal. Năo é que a poesia seja necessária aos costumes, mas pode dar-lhes graça. O que eu fiz entăo foi perguntar ao desembargador se tais criaturas tiveram algum ressentimento da vida. Respondeu-me que um, um só e grande; năo tiveram filhos.
— Mana Rita disse-me isso mesmo.
— Năo tiveram filhos, repetiu Campos.
Ambos queriam um filho, um só que fosse, ela ainda mais que ele. D. Carmo possuía todas as espécies de ternura, a conjugal, a filial, a maternal. Campos ainda lhe conheceu a măe, cujo retrato, encaixilhado com o do pai, figurava na sala, e falava de ambos com saudades longas e suspiradas. Năo teve irmăos, mas a afeiçăo fraternal estaria incluída na amical, em que se dividia também. Quanto aos filhos, se os năo teve, é certo que punha muito de măe nos seus carinhos de amiga e esposa. Năo menos certo é que para essa espécie de orfandade ŕs avessas, tem agora um paliativo.
— D. Fidélia?
— Sim, Fidélia; e teve ainda outro que acabou.
Aqui referiu-me uma história que apenas levará meia dúzia de linhas, e năo é pouco para a tarde que vai baixando; digamo-la depressa.
Uma das suas amigas tivera um filho, quando D. Carmo ia em vinte e tantos anos. Sucessos que o desembargador contou por alto e năo valia a pena instar por eles, trouxeram a măe e o filho para a casa Aguiar durante algum tempo. Ao cabo da primeira semana tinha o pequeno duas măes. A măe real precisou ir a Minas, onde estava o marido; viagem de poucos dias. D. Carmo alcançou que a amiga lhe deixasse o filho e a ama. Tais foram os primeiros liames da afeiçăo que cresceu com o tempo e o costume. O pai era comerciante de café, — comissário, — e andava entăo a negócios por Minas; a măe era filha de Taubaté, Săo Paulo, amiga de viajar a cavalo. Quando veio o tempo de batizar o pequeno, Luísa Guimarăes convidou a amiga para madrinha dele. Era justamente o que a outra queria; aceitou com alvoroço, o marido com prazer, e o batizado se fez como uma festa da família Aguiar.
A meninice de Tristăo, — era o nome do afilhado, — foi dividida entre as duas măes, entre as duas casas. Os anos vieram, o menino crescia, as esperanças maternas de D. Carmo iam morrendo. Este era o filho abençoado que o acaso lhes deparara, disse um dia o marido; e a mulher, católica também na linguagem, emendou que a Providęncia, e toda se entregou ao afilhado. A opiniăo que o desembargador achou em algumas pessoas, e creio justa, é que D. Carmo parecia mais verdadeira măe que a măe de verdade. O menino repartia-se bem com ambas, preferindo um pouco mais a măe postiça. A razăo podiam ser os carinhos maiores, mais continuados, as vontades mais satisfeitas e finalmente os doces, que também săo motivos para o infante, como para o adulto. Veio o tempo da escola, e ficando mais perto da casa Aguiar, o menino ia jantar ali, e seguia depois para as Laranjeiras, onde morava Guimarăes. Algumas vezes a própria madrinha o levava.
Nas duas ou tręs moléstias que o pequeno teve, a afliçăo de D. Carmo foi enorme. Uso o próprio adjetivo que ouvi ao Campos, conquanto me pareça enfático, e eu năo amo a ęnfase. Confesso aqui uma coisa. D. Carmo é das poucas pessoas a quem nunca ouvi dizer que săo "doidas por morangos", nem que "morrem por ouvir Mozart". Nela a intensidade parece estar mais no sentimento que na expressăo. Mas, enfim, o desembargador assistiu ŕ última das moléstias do menino, que foi em casa da madrinha, e pôde ver a afliçăo de D. Carmo, os seus afagos e sustos, alguns minutos de desespero e de lágrimas, e finalmente a alegria do restabelecimento. A măe era măe, e sentiu decerto, e muito, mas diz ele que năo tanto; é que haverá ternuras atadas, ou ainda moderadas, que se năo mostram inteiramente a todos.
Doenças, alegrias, esperanças, todo o repertório daquela primeira quadra da vida de Tristăo foi visto, ouvido e sentido pelos dois padrinhos, e mais pela madrinha, como se fora do seu próprio sangue. Era um filho que ali estava, que fez dez anos, fez onze, fez doze, crescendo em altura e graça. Aos treze anos, sabendo que o pai o destinava ao comércio, foi ter com a madrinha e confiou-lhe que năo tinha gosto para tal carreira.
— Por que, meu filho?
D. Carmo usava este modo de falar, que a idade e o parentesco espiritual lhe permitiam, sem usurpaçăo de ninguém. Tristăo confessou-lhe que a sua vocaçăo era outra. Queria ser bacharel em Direito. A madrinha defendeu a intençăo do pai, mas com ela Tristăo era ainda mais voluntarioso que com ele e a măe, e teimou em estudar Direito e ser doutor. Se năo havia propriamente vocaçăo, era este título que o atraía.
— Quero ser doutor! quero ser doutor!
A madrinha acabou achando que era bom, e foi defender a causa do afilhado. O pai deste relutou muito. "Que havia no comércio que năo fosse honrado, além de lucrativo? Demais, ele năo ia começar sem nada, como sucedia a outros e sucedeu ao próprio pai, mas já amparado por este." Deu-lhe outras mais razőes, que D. Carmo ouviu sem negar, alegando sempre que o importante era ter gosto, e se o rapaz năo tinha gosto, melhor era ceder ao que lhe aprazia. Ao cabo de alguns dias o pai de Tristăo cedeu, e D. Carmo quis ser a primeira que desse ao rapaz a boa nova. Ela própria sentia-se feliz.
Cinco ou seis meses depois, o pai de Tristăo resolveu ir com a mulher cumprir uma viagem marcada para o ano seguinte, — visitar a família dele; a măe de Guimarăes estava doente. Tristăo, que se preparava para os estudos, tăo depressa viu apressar a viagem dos pais, quis ir com eles. Era o gosto da novidade, a curiosidade da Europa, algo diverso das ruas do Rio de Janeiro, tăo vistas e tăo cansadas. Pai e măe recusaram levá-lo; ele insistiu. D. Carmo, a quem ele recorreu outra vez, recusou-se agora, porque seria afastá-lo de si, ainda que temporariamente; juntou-se aos pais do mocinho para conservá-lo aqui. Aguiar desta vez tomou parte ativa na luta; mas năo houve luta que valesse. Tristăo queria ŕ fina força embarcar para Lisboa.
— Papai volta daqui a seis meses; eu volto com ele. Que săo seis meses?
— Mas os estudos? dizia-lhe Aguiar. Vocę vai perder um ano...
— Pois que se perca um ano. Que é um ano que năo valha a pena sacrificá-lo ao gosto de ir ver a Europa?
Aqui D. Carmo teve uma inspiraçăo; prometeu-lhe que, tăo depressa ele se formasse, ela iria com ele viajar, năo seis meses, mas um ano ou mais; ele teria tempo de ver tudo, o velho e o novo, terras, mares, costumes... Estudasse primeiro. Tristăo năo quis. A viagem se fez, a despeito das lágrimas que custou.
Năo ponho aqui tais lágrimas, nem as promessas feitas, as lembranças dadas, os retratos trocados entre o afilhado e os padrinhos. Tudo se afirmou de parte a parte, mas nem tudo se cumpriu; e, se de lá vieram cartas, saudades e notícias, quem năo veio foi ele. Os pais foram ficando muito mais tempo que o marcado, e Tristăo começou o curso da Escola Médica de Lisboa. Nem comércio nem jurisprudęncia.
Aguiar escondeu quanto pôde a notícia ŕ mulher, a ver se tentava alguma coisa que trocasse as măos ŕ sorte, e restituísse o rapaz ao Brasil; năo alcançou nada, e ele próprio năo podia já disfarçar a tristeza. Deu a dura novidade ŕ mulher, sem lhe acrescentar remédio nem consolaçăo; ela chorou longamente. Tristăo escreveu comunicando a mudança de carreira e prometendo vir para o Brasil, apenas formado; mas daí a algum tempo eram as cartas que escasseavam e acabaram inteiramente, elas e os retratos, e as lembranças; provavelmente năo ficaram lá saudades. Guimarăes aqui veio, sozinho, com o único fim de liquidar o negócio, e embarcou outra vez para nunca mais.
5 de fevereiro
Relendo o que escrevi ontem, descubro que podia ser ainda mais resumido, e principalmente năo lhe pôr tantas lágrimas. Năo gosto delas, nem sei se as verti algum dia, salvo por mama, em menino; mas lá văo. Pois văo também essas que aí deixei, e mais a figura de Tristăo, a que cuidei dar meia dúzia de linhas e levou a maior parte delas. Nada há pior que a gente vadia, — ou aposentada, que é a mesma coisa; o tempo cresce e sobra, e se a pessoa pega a escrever, năo há papel que baste.
Entretanto, năo disse tudo. Verifico que me faltou um ponto da narraçăo do Campos. Năo falei das açőes do Banco do Sul, nem das apólices, nem das casas que o Aguiar possui, além dos honorários de gerente; terá uns duzentos e poucos contos. Tal foi a afirmaçăo do Campos, ŕ beira do rio, em Petrópolis. Campos é homem interessante, posto que sem variedade de espírito; năo importa, uma vez que sabe despender o que tem. Verdade é que tal regra levaria a gente a aceitar toda a casta de insípidos. Ele năo é destes.
6 de fevereiro
Outra coisa que também năo escrevi no dia 4, mas essa năo entrou na narraçăo do Campos. Foi ao despedir-me dele, que lá ficou em Petrópolis tręs ou quatro dias. Como eu lhe deixasse recomendaçőes para a sobrinha, ouvi-lhe que me respondeu:
— Está em casa da gente Aguiar; passou lá a tarde e a noite de ontem, e conta ficar até que eu desça.
6 de fevereiro, ŕ noite
Diferença de vocaçőes; o casal Aguiar morre por filhos, eu nunca pensei neles, nem lhes sinto a falta, apesar de só. Alguns há que os quiseram, que os tiveram e năo souberam guardá-los.
10 de fevereiro
Ontem, indo jantar a Andaraí, contei a mana Rita o que ouvi ao desembargador.
— Ele năo disse nada da sobrinha?
— Todo o tempo foi pouco para falar da gente Aguiar.
— Pois eu soube o que me faltava de Fidélia; foi a própria D. Carmo que me contou.
— Se a história é tăo longa como a dela...
— Năo, é muito mais curta; diz-se em cinco minutos.
Tirei o relógio para ver a hora exata, e marcar o tempo da narraçăo. Rita começou e acabou em dez minutos. Justamente o dobro. Mas o assunto era curioso, trata-se do casamento, e a viúva interessa-me.
— Conheceram-se aqui na Corte, disse Rita; na roça nunca se viram. Fidélia passava uns tempos em casa do desembargador (a tia ainda era viva), e o rapaz, Eduardo, estudava na Escola de Medicina. A primeira vez que ele a viu foi das torrinhas do Teatro Lírico, onde estava com outros estudantes; viu-a ŕ frente de um camarote, ao pé da tia. Tornou a vę-la, foi visto por ela, e acabaram namorados um do outro. Quando souberam quem eram, já o mal estava feito, mas provavelmente o mal se faria, ainda que o soubessem desde princípio, porque a paixăo foi repentina. O pai de Fidélia, vindo ŕ Corte, teve notícia do caso pelo próprio irmăo, que cautelosamente lhe disse o que desconfiava, e insinuou que era boa ocasiăo de fazerem as pazes as duas famílias. O barăo ficou furioso, pegou da moça e levou-a para a fazenda. Vocę năo imagina o que lá se passou.
— Imagino, imagino.
— Năo imagina.
— Pô-la no tronco?
— Năo, protestou Rita; năo fez mais que ameaçá-la com palavras, mas palavras duras, dizendo-lhe que a poria fora de casa, se continuasse a pensar em tal atrevimento. Fidélia jurou uma e muitas vezes que tinha um noivo no coraçăo e casaria com ele, custasse o que custasse. A măe estava do lado do marido, e opôs-se também. Fidélia resistiu e recolheu-se ao silęncio, passava os dias no quarto, chorando. As mucamas viam as lágrimas e os sinais delas, e desconfiavam de amores, até que adivinharam a pessoa, se năo foi palavra que ouviram aos próprios senhores. Enfim, a moça entrou a năo querer comer. Vendo isto, a măe, com receio de algum acesso de moléstia, começou a pedir por ela, mas o marido declarou que năo lhe importava vę-la morta ou até doida; antes isso que consentir na mistura do seu sangue com o da gente Noronha. A oposiçăo da gente Noronha năo foi menor. Ao saber da paixăo do filho pela filha do fazendeiro, o pai de Eduardo mandou-lhe dizer que o deixaria na rua, se teimasse em semelhante afronta.
— Como inimigos eram dignos um do outro, observei.
— Eram, concordou Rita. O desembargador soube o que se passava e foi ŕ fazenda, onde viu tudo confirmado, e disse ao irmăo que năo valia opor-se, porque a filha, chegada ŕ maioridade, podia arrancar-se de casa. Ninguém obrigava a humilhar-se diante da gente Noronha, nem a fazer as pazes com ela; bastava que os filhos casassem e fossem para onde quisessem. O barăo recusou a pés juntos e o desembargador dispunha-se a voltar para a Corte, sem continuar a comissăo que se dera a si mesmo, quando Fidélia adoeceu deveras. A doença foi grave, a cura difícil pela recusa dos remédios e alimentos... Que sorriso é esse? Năo acredita?
— Acredito, acredito; acho romanesco. Em todo caso, essa moça interessa-me. A cura, dizia vocę, foi difícil?
— Foi; a măe resolveu pedir ao marido que cedesse, o marido concedeu finalmente, impondo a condiçăo de nunca mais receber a filha nem lhe falar; năo assistiria ao casamento, năo queria saber dela. Restabelecida, Fidélia veio com o tio, e no ano seguinte casou. O pai do noivo também declarou que os năo queria ver.
— Tanta luta para năo serem felizes por muito tempo.
— É verdade. A felicidade foi grande, mas curta. Um dia resolveram ir ŕ Europa, e foram, até que se deu a morte inesperada do marido, em Lisboa, donde Fidélia fez transportar o corpo para aqui. Vocę lá a viu ao pé da sepultura; lá vai muitas vezes. Pois nem assim o pai, que também já é viúvo, nem assim quis receber a filha. Quando veio ŕ Corte a primeira vez, Fidélia foi ter com ele, sozinha, depois com o tio; todas as tentativas foram inúteis. Nunca mais a viu nem lhe falou. Eu, mais ou menos, já contei isto a vocę; só năo conhecia bem as particularidades da resistęncia na fazenda, mas aí está. Agora diga se ela é viúva que se case.
— Com qualquer, năo; pelo menos, é difícil; mas, um sujeito fresco, — continuei enfunando-me e rindo.
— Vocę ainda pensa?...
— Eu, mana? Eu penso no seu jantar, que há de estar delicioso. O que me fica da história é que essa moça, além de bonita, é teimosa; mas a sua sopa vale para mim todas as noçőes estéticas e morais deste mundo e do outro.
Ao jantar, contei a Rita o que me dissera o desembargador sobre haver ido a sobrinha passar alguns dias ao Flamengo, e perguntei-lhe se era assim a intimidade na casa.
— Certamente que é. Já uma vez Fidélia adoeceu no Flamengo e lá se tratou. Tendo perdido a esperança do filho postiço, o Tristăo, que os esqueceu inteiramente, ficaram cada vez mais ligados ŕ viúva. D. Carmo é toda ternura para ela. Vocę lembra-se das bodas de prata, năo? Aguiar năo lhe chama filha para năo parecer que usurpa esse título ao pai verdadeiro; mas a mulher, năo tendo ela măe, é o nome que lhe dá. Nem Fidélia parece querer outra măe.
11 de fevereiro
Antigamente, quando eu era menino, ouvia dizer que ŕs crianças só se punham nomes de santos ou santas. Mas Fidélia...? Năo conheço santa com tal nome, ou sequer mulher pagă. Terá sido dado ŕ filha do barăo, como a forma feminina de Fidélio, em homenagem a Beethoven? Pode ser; mas eu năo sei se ele teria dessas inspiraçőes e reminiscęncias artísticas. Verdade é que o nome da família, que serve ao título nobiliário, Santa-Pia, também năo o acho na lista dos canonizados, e a única pessoa que conheço assim chamada, é a de Dante: Ricorditi di me, chi son la Pia.
Parece que já năo queremos Anas nem Marias, Catarinas nem Joanas, e vamos entrando em outra onomástica, para variar o aspecto ŕs pessoas. Tudo serăo modas neste mundo, exceto as estrelas e eu, que sou o mesmo antigo sujeito, salvo o trabalho das notas diplomáticas, agora nenhum.
18 de fevereiro
Campos disse-me hoje que o irmăo lhe escrevera, em segredo, ter ouvido na roça o boato de uma lei próxima de aboliçăo. Ele, Campos, năo crę que este ministério a faça, e năo se espera outro.
24 de fevereiro
A data de hoje (revoluçăo de 1848) lembra-me a festa de rapazes que tivemos em Săo Paulo, e um brinde que eu fiz ao grande Lamartine. Ai, viçosos tempos! Eu estava no meu primeiro ano de Direito. Como falasse disso ao desembargador, disse-me este:
— Meu irmăo crę que também aqui a revoluçăo está próxima, e com ela a República.