Capítulo 52

UM SEGREDO
Eis agora a matéria da conspiração. Na rua, ao virem de São Clemente, foi que Pedro, gastado o melhor do tempo com a carta e o jantar, pôde revelar à moça um segredo:
— Titia disse lá em casa que D. Cláudia lhe contara em segredo (não diga nada) que seu pai vai ser nomeado presidente de província.
— Não sei nada disso, mas não creio, porque papai é conservador.
— D. Cláudia disse a titia que ele é liberal, quase radical. Parece que a presidência é certa; ela pediu segredo, e titia, quando nos contou, também pediu segredo. Eu também lhe peço que não diga nada, mas é verdade.
— Verdade como? Papai não vai com liberais; o senhor não sabe como papai é conservador. Se ele defende os liberais é porque é tolerante.
— Se a província fosse a do Rio de Janeiro, eu gostaria, porque não era preciso ir morar na Praia Grande, e se ele fosse, a viagem é só de meia hora, eu podia ir lá todos os dias.
— Era capaz?
— Apostemos.
Flora, depois de um instante:
— Para que, se não há presidência?
— Suponha que há.
— É preciso supor muito, — que há presidência e que a província é a do Rio. Não, não há nada.
— Então suponha só metade, — que há presidência e que é Mato Grosso.
Flora teve um calafrio. Sem admitir a nomeação, tremeu ao nome da província. Pedro lembrou ainda o Amazonas, Pará, Piauí... Era o infinito, mormente se o pai fizesse boa administração, porque não voltaria tão cedo. Já agora a moça resistia menos, achava possível e abominável, mas dizia isto para si, dentro do coração. De repente, Pedro, quase estacando o passo:
— Se ele for, eu peço ao governo o lugar de secretário e vou também.
A luz intermitente das lojas, refletindo no rosto da moça, à medida que eles iam passando por elas, ajudava a dos lampiões da rua, e mostrava a emoção daquela promessa. Sentia-se que o coração de Flora devia estar batendo muito. Em breve, porém, começou ela a pensar em outra coisa. Natividade não consentiria nunca; depois, um estudante... Não podia ser. Pensou em algum escândalo. Que ele fugisse, embarcasse, fosse atrás dela...
Tudo isto era visto ou pensado em silêncio. Flora não se admirava de pensar tanto e tão atrevidamente; era como o peso do corpo, que não sentia: andava, pensava, como transpirava. Não calculou sequer o tempo que ia gastando em imaginar e desfazer idéias. Que isto lhe desse mais prazer que desprazer, é certo. Ao pé dela, Pedro ia naturalmente cuidando, com os olhos nos pés, e os pés nas nuvens. Não sabia que dissesse no meio de tão longo silêncio. Entretanto, a solução parecia-lhe única. Já não pensava na presidência do Rio. Queria-se com ela, no ponto mais remoto do império, sem o irmão. A esperança de se desterrarem assim de Paulo verdejou na alma de Pedro. Sim, Paulo não iria também; a mãe não se deixaria ficar desamparada. Que perdesse um filho, vá; mas ambos...
A quem quer que este final de monólogo pareça egoísta, peço-lhe pelas almas dos seus parentes e amigos, que estão no Céu, peço-lhe que considere bem as causas. Considere o estado da alma do rapaz, a contigüidade da moça, as raízes e as flores da paixão, a própria idade de Pedro, o mal da terra, o bem da mesma Terra. Considere mais a vontade do Céu, que vela por todas as criaturas que se querem, salvo se um só é que quer a outra, porque então o Céu é um abismo de iniqüidades, e não lhe importa esta imagem. Considere tudo, amigo; deixe-me ir contando só e contando mal o que se passou naquele curto trânsito entre as duas casas. Quando lá chegaram, falavam de boca.
Em cima, como viste, continuaram a falar, até que o assunto da presidência voltou. Flora notou então a cautelosa insistência com que Aires olhava para eles, como se buscasse adivinhar a matéria da conversação. Sentia que não estivesse ali também, ouvindo e falando, finalmente prometendo fazer alguma coisa por ela. Aires podia, sim, — era seu amigo e todos o tinham em grande conta, — podia intervir e destruir o projeto da presidência.
Sem querer nem saber, diria isto mesmo com os olhos ao velho diplomata. Retirava-os, mas eles iam de si mesmos repetir o monólogo, e acaso perguntar alguma coisa que Aires não percebia e devia ser interessante. Pode ser que refletissem a angústia ou o que quer que era que lhe doía dentro. Pode ser; a verdade é que Aires começou a ficar curioso, e tão depressa Pedro deixou o lugar, para acudir ao chamado da mãe, deixou ele Natividade para ir falar à moça.
Flora, já de pé, mal teve tempo de trocar duas palavras, dessas que se não podem interromper sem dor ou prurido, ao menos. Aires perguntava-lhe se nunca lhe dissera que sabia adivinhar.
— Não, senhor.
— Pois sei; adivinhei agora mesmo que me quer dizer um segredo.
Flora ficou espantada. Não querendo negar nem confessar, respondeu-lhe que só adivinhara metade.
— A outra é?...
— A outra é pedir-lhe um obséquio de amizade.
— Peça.
— Não, agora não, já nos vamos embora; mamãe e papai estão fazendo as despedidas. Só se for na rua. Quer vir conosco a São Clemente?
— Com o maior prazer.