Capítulo 117

POSSE DAS CADEIRAS
Quinta-feira, quando os gêmeos tomaram assento na Câmara, Natividade e Perpétua foram ver a cerimônia. Pedro ou Paulo arranjou-lhes uma tribuna. A mãe desejou que Aires fosse também. Quando este ali chegou, já as achou sentadas, Natividade a fitar com a luneta o presidente e os deputados. Um destes falava sobre a ata, e ninguém lhe prestava atenção. Aires sentou-se um pouco mais dentro, e, após alguns minutos, disse a Natividade:
— A senhora escreveu-me que eram candidatos de dois partidos contrários.
Natividade confirmou a notícia; foram eleitos em oposição um ao outro. Ambos apoiavam a República, mas Paulo queria mais do que ela era, e Pedro achava que era bastante e sobeja. Mostravam-se sinceros, ardentes, ambiciosos; eram bem aceitos dos amigos, estudiosos, instruídos...
— Amam-se finalmente?
— Amam-se em mim, respondeu ela depois de formular essa frase na cabeça.
— Pois basta esse terreno amigo.
— Amigo, mas caduco; amanhã posso faltar-lhes.
— Não falta; a senhora tem muitos e muitos anos de vida. Faça uma viagem à Europa com eles, e verá que regressa ainda mais robusta. Eu sinto-me duplicado, por mais que me custe à modéstia, mas a modéstia perdoa tudo. E depois, quando os vir encarreirados e grandes homens...
— Por que é que a política os há de separar?
— Sim, podiam ser grandes na ciência, um grande médico, um grande jurisconsulto...
Natividade não quis confessar que a ciência não bastava. A glória científica parecia-lhe comparativamente obscura; era calada, de gabinete, entendida de poucos. Política, não. Quisera só a política, mas que não brigassem, que se amassem, que subissem de mãos dadas... Assim ia pensando consigo, enquanto Aires, abrindo mão da ciência, acabou declarando que, sem amor, não se faria nada.
— Paixão, disse ele, é meio caminho andado.
— A política é a paixão deles; paixão e ambição. Talvez já pensem na Presidência da República.
— Já?
— Não... isto é, sim; guarde segredo. Interroguei-os separadamente; confessaram-me que este era o seu sonho imperial. Resta saber o que fará um, se o outro subir primeiro.
— Derrubá-lo-á, naturalmente.
— Não graceje, conselheiro.
— Não é gracejo, baronesa. A senhora cuida que a política os desune; francamente, não. A política é um incidente, como a moça Flora foi outro...
— Ainda se lembram dela.
— Ainda?
— Foram à missa aniversária, e desconfio que foram também ao cemitério, não juntos, nem à mesma hora. Se foram, é que verdadeiramente gostavam dela; logo, não foi um incidente.
Sem embargo do que Natividade lhe merecia, Aires não insistiu na opinião, antes deu mais relevo à dela, com o próprio fato da visita ao cemitério.
— Não sei se foram, emendou Natividade; desconfio.
— Devem ter ido; eles gostavam realmente da pequena. Também ela gostava deles; a diferença é que, não alcançando unificá-los, como os via em si, preferiu fechar os olhos. Não lhe importe o mistério. Há outros mais escuros.
— Parece que vai entrar a cerimônia, disse Perpétua que olhava para o recinto.
— Chegue-se para a frente, conselheiro.
A cerimônia era a do costume. Natividade cuidou que ia vê-los entrar juntos e afirmarem juntos o compromisso regimental. Viriam assim como os trouxera no ventre e na vida. Contentou-se de os admirar separadamente. Paulo primeiro, Pedro depois, ambos graves, e ouviu-lhes cá de cima repetir a fórmula com voz clara e segura. A cerimônia foi curiosa para as galerias, graças à semelhança dos dois; para a mãe foi comovedora.
— Estão legisladores, disse Aires no fim.
Natividade tinha os olhos gloriosos. Ergueu-se e pediu ao velho amigo que as acompanhasse à carruagem. No corredor acharam os dois recentes deputados, que vinham ter com a mãe. Não consta qual deles a beijou primeiro: não havendo regimento interno nesta outra câmara, pode ser que fossem ambos a um tempo, metendo-lhes ela a cara entre as bocas, uma face para cada um. A verdade é que o fizeram com igual ternura. Depois voltaram ao recinto.